Os prussianos em Nemours
Domingo de tarde, e quando nada fazia prever a sua chegada, cerca de 37 ulanos a passo, com carabinas, entraram na cidade, insultando os habitantes; [ilegível] as lojas. Depois de um exame da situação, o destacamento inimigo installou-se no hotel S. Pedro, defronte da estação do caminho de ferro, isto é, fóra da cidade. Á hora e meia da madrugada approximadamente, sentiu-se uma viva fuzilaria; os guardas moveis que se achavam em Chateâu-Landon, avisados do que se passava, tinham vindo cercar a hospedaria. Os ulanos surprehendidos por este ataque imprevisto, resistiram no entretanto, mas foram obrigados a render-se ao cabo de meia hora, depois de terem perdido seis dos seus; do nosso lado havia tres feridos. A captura foi operada ao grito de viva a republica! Deviamos temer represalias: não se fizeram esperar. No dia seguinte, pelas 11 horas da manhã, 34 cavalliros inimigos penetraram na cidade, de sabre em punho; ordenaram á municipalidade que aprontasse para o dia seguinte 5:000 sacas de alojamentos, 60:000 kilogrammas de aveia, e 12:000 kilogrammas do pão; annunciavam além d’isso a passagem de 30:000 homens. Um forte destacamento cercou com effeito, terça feira de manhã, a cidade por fórma tal, que um enterro que ia para o cemiterio teve de voltar para o largo. Procederam então ás requisições e depois de ter satisfeito tanto quanto pôde ser á sua avidez, dirigiram-se para a estação do caminho de ferro, logar do combate da ante-vespera, e deitaram fogo a tudo o que n’este inez bairro. No momento em que escrevo esta carta isto é, 30 horas depois do acontecimento, ainda lavra o incendio. O armazem das merceadorias, as fabricas, as casas habitadas, as propriedades isoladas, tudo são chammas. Roubaram, saquearam tudo; as perdas são immensas, ir-reparaveis. Os bandidos deixavam petroleo inflammado por todos os lados: é assim que respeitam o direito das gentes, é d’este modo que lhes mandaram fazer a guerra. Eis os vencedores de uma cidade onde não ha uma arrai para a defensão, porque se tivessemos tido armas, mais de uma mulher até se teria defendido. «Depois de terem realisado estes altos feitos, entraram brutalmente nas poucas casas que momentaneamente tinham poupado, e beberam e comeram, acompanhados por uma banda marcial composta de seis clarins e seis tambores. Depois de terem a barriga bem recheada, foram os mil e duzentos a mil e quinhentos heroes, desfilar por diante do quadro sinistro. E, quando os habitantes se precipitavam atraz d’elles para apagar o incendio, voltavam elles a correr, esmurravam-n’os brutalmente, e mostravam-lhes seis peças que dominavam a cidade, e que estavam promptas diziam elles para fazer a sua obrigação. Tudo o que não foi queimado n’este infeliz bairro foi destruido. Ainda isto não é tudo: levaram o maire de Nemours e o de S. Pedro, e dois vereadores da camara municipal, exigiram 10 mil francos (9 contos de reis) de resgate por cada um d’elles. Foi preciso tambem desenterrar os seus mortos do combate do domingo, e transportal-os a Sarchant... Hoje estamos tranquillos, mas receiamos tornar a vêl-os.