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Artigo

O cerco de Paris

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Paris · França Correspondência · Exterior / internacional · Hospital · Igreja · Interpretacção incerta · Moderno

Effeitos do bombardeamento—Os jornaes hespanhoes traduzem desfolhas francezas o seguinte, que é horroroso e aperta o coração, acerca dos effeitos do bombardeamento contra a cidade de Paris. As informações vão até o dia 10: «Está caindo uma verdadeira chuva de projectis, alguns dos quaes pezam noventa e quatro kilogrammas, sobre a parte da cidade que se estende do quartel dos Inválidos no Museu. O fogo é de dia e de noite, sem interrupção e com tal violência, que na noite de 8 para 9 caia uma granada de dois em dois minutos. Está tudo cheio de feridos: hospitaes, ambulâncias, escolas, museus e bibliothecas, as prisões, as igrejas de S. Sulpicio, de Sorbonna e de Val de GrAce, e algumas casas particulares. As bombas inimigas tem matado nas ruas algumas mulheres; outras tem sido mortas mesmo em casa, dormindo socegadamente nos seus leitos. Na rua de Vaugirard caiu um projectil que matou quatro crianças que estavam n’uma casa, e deixou feridas outras cinco. No espaço de algumas horas cairam vinte granadas no museu de Luxemburgo, onde estão encerradas as obras primas da arte moderna, e no jardim, d’onde foi preciso remover a toda a pressa uma ambulancia que já se havia estabelecido. Ficaram destruídos os famosos ornatos do Museu, que não tinham rival no mundo. Durante a noite caiu em Val de GrAce um projectil que matou dois feridos. Este hospital, cuja elevada cupula o torna conhecido a grande distancia, mostra já os estragos do bombardeamento nos pateos, nas salas e na igreja, que ficou com a cornija inteiramente despedaçada.» Falando dos effeitos do bombardeamento no forte Rosny, a Correspondência Havas diz: «Depois do dia 27 e do 28, que para esse forte foram já bastante rudes, veio o dia 29 que foi terrível; em cinco horas caíram só na caserna da esquerda cento e cincoenta e cinco bombas; foram traspassadas as casamatas que todos julgavam ao abrigo de balas, e, desde as oito horas da manhã até ás seis da tarde, caíram no recinto do forte, na escarpa e contra escarpa, perto de dois mil projectis. Devemos dizer todavia que tão inaudito fogo, muito mais cerrado e para impressionar que o de Sebastopol, poucos damnos causou sob o ponto de vista da perda de vidas. Foram feridos só tres ou quatro marinheiros, desgraçadamente uma bomba poz fora de combate seis individuos que estavam na mesma casamata, e pertenciam á artilheria dos voluntários da guarda nacional.» O correspondente do «Times» também mandou para aquella folha alguns pormenores interessantes sobre o bombardeamento dos fortes d’Este. Depois de contar que na manhã de 29 de dezembro saíra com um amigo de Paris para Avron, diz: «Podeis continuar assim por espaço de dois annos, me disse um dos guardas moveis que nos acompanhava na nossa observação. E eu effectivamente julgava que o bombardeamento poderia da mesma forma continuar por vinte annos, a não ser que a queda constante de bombas n’um forte produzisse o effeito que resulta para o cerebro a queda constante de gotas d’agua sobre a cabeça. O tiro, comtudo, era bem dirigido, e tão bem que nós, que nos julgavamos em completa segurança, vimos que uma bomba, sahida da mesma bateria, se dirigiu directamente para o sitio em que nos achavamos; por fortuna desceu muito depressa. O movel que pouco antes havia fallado disse que os prussianos tinham percebido, provavelmente, que a casa estava occupada e nesse intuito haviam querido fazer-nos a honra de nos enviar um projectil. E dizia isto em ar de gracejo; porem dois ou tres dos seus companheiros não se mostravam tão satisfeitos. Como já disse, achavamo-nos no andar superior, e uma bomba, talvez inoffensiva para um forte—relativamente—, atravessou o tecto como se este fôra uma simples folha de papel; de momento as minhas apprehensões resentiram-se do que lia pouco tinha lido n’um jornal, de ter uma bomba atravessado um quarto—proximo a Rosny, creio eu—, onde oito pessoas estavam a jantar, das quaes seis ficaram mortas e duas feridas. Retirei-me da melhor maneira que pude, e saindo da casa, fui juntar-me a um grupo de homens e rapazes que assistiam ao bombardeamento n’um logar bastante seguro.» As baterias que o começaram na noite de 9, primeira em que se lançaram granadas para o interior da cidade, são as situadas nas eminências de Meudon e Bellevue. Passou de 2:990 o numero de projectis occos que foram despedidos. Em geral esses projectis tem 80 centimetros de altura e 50 de diâmetro na base. A forma é cónica, e o pezo varia entre 30 e 50 kilogrammas. É immenso o seu poder de destruição, multiplicado pelo pezo e pela velocidade. Basta, para se fazer idéa do que são esses projectis, lembrar que por occasião do bombardeamento do monte Avron bastou um para furar de baixo até cima uma casa de dois andares, matar seis pessoas, de oito que viviam lá, e derribar com a explosão as paredes mestras do edificio. Na noute de 9 todos os bairros da margem esquerda do Sena, desde o Jardim das Plantas até o Campo de Marte, experimentaram effeitos do bombardeamento. A maior ia dos habitantes desampararam as casas e refugiaram-se na margem direita do rio. Abstraindo os edificios demolidos, não se falla em incendios, com quanto seja provável que tenha havido alguns; os bairros a que me refiro são os que encerram maior numero de monumentos, tanto historicos como modernos. Todos elles foram maltratados pelas bombas prussianas. Entre os que padeceram maiores damnos, cita-se o Pantheon, a Sorboune, os Inválidos, o museu de Cluny, a bibliotheca de Santa Genoveva, a famosa igreja de S. Sulpicio, o Odeon, o Luxemburgo e o Observatorio. As casas mais maltratadas diz-se que são as seguintes: Gresitile, Saint-Germain, Bac, Sainte-Plucide, Cherchemidi, Soufflot, Curier, Racine, Babylole e Jony. Receberam considerável numero de granadas os hospitaes da Pitié, Salpétriére, Charité e Val de-Grace, e os doentes tiveram que ser transferidos para o interior da cidade, por uma noite tempestuosisima e debaixo d’uma geada horrorosa. Muitos morreram no caminho. Diz-se ser considerável o numero de victimas validas, e que são numerosos os doentes abandonados; coisa que se concebe perfeitamente, considerando que alem dos grandes hospitaes citados, no bairro latino e no arrabalde Saint-Germain, havia mais de cem ambulancias ou hospitaes de sangue.»