Voltar ao arquivo
Artigo

Immoralidade e crime

Justiça e ordem públicaMeteorologia e fenómenos naturaisMunicípio e administracção localReligiãoSociedade e vida quotidianaTransportes e comunicaçõesAbastecimento de águaBeneficênciaCapturasCheiasCulto e cerimóniasDiligênciasHomicídiosPobres e esmolas
Beja · Ervidel · Portugal

Teve ha poucos dias lugar, junto á villa de Ferreira, na herdade denominada Arrabida, um acontecimento horroroso, um crime hediondo, e inaudita immoralidade, para que não temos expressões bastantes com que o fulminar. Eis o facto: No dia 24 do corrente, pela manhã, uma pobre, mas muito virtuosa rapariga da villa de Ferreira, de desoito annos de idade, andando apanhando grãos juntamente com outras mulheres, foi incumbida pela quadrilha trabalhadora, de ir buscar agua para beberem todas n’aquelle dia. Tomando o cantaro á cabeça, a virtuosa donzella destacara das suas companheiras de trabalho, e alegre e contente se dirigira para o poço, que ficava a bastante distancia, para cumprir a missão, que lhe fora encarregada. Chegada a este sitio, um monstro com forma humana, chamado Iguacio Canhoto, casado (!) e morador na aldêa de Ervidel, sahio ao encontro da desditosa virgem, e fez-lhe algumas propostas, que a sua honra energicamente repellio. Frustrados os meios suasorios, o aggressor passou aos meios da força e de ameaça, e, agarrando-a brutalmente por um braço, mostrou-lhe na ponta de uma navalha, o meio mais proprio de premiar a sua virtude. Mesmo assim, no descampado de um valle, sem protecção de ninguém, vendo brilhar diante de seus olhos o ferro do assassino e os olhos do monstro enraivecido, a virgem preferio a morte á deshonra, e, lavada em pranto, e cheia de afflicção, offereceu o peito ao punhal, mas continuou a negar a offensa á sua virtude. Então o monstro, deitando uma das mãos de ferro ao debil pescoço da donzella, e com a outra tapando-lhe a boca para abafar seus gritos de soccorro, entrou n’uma luta tão desigual como cobarde, e depois de algum tempo, extenuadas as forças, a pobre rapariga cheia de contusões e de feridas, maltratada por todas as formas foi vencida pelos brutaes instinctos d’esta fera, que sem receios das leis divinas e humanas se arrojou a perpetrar tão feio crime, que não pode narrar-se, sem a mais pronunciada aversão pelo seu auctor. Procedeu-se ao corpo de delicto e fazem-se diligencias pela captura do criminoso. Sr. Administrador do concelho de Ferreira, perseguição enérgica contra este monstro. Sr. Juiz de direito da comarca de Beja, justiça contra o infame perpetrador d’este attentado. Seremos sempre tão promptos em retribuir o mérito e a virtude pelo louvor, como inexoraveis em fulminar o crime — Justiça!