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Berlim · Paris · Alemanha · Brasil · França · Prússia Exterior / internacional · Interpretacção incerta

França—Certa de Paris á redacção do Diario Nacional: A questão Tonnelet e Bertin, em que lhe fallei n uma das minhas cartas, era fóra de duvida que acariciaria á França represálias do governo da Prússia ou do homem que representa esse governo. Quanto seja sympathica a causa de uma grande nação humilhada e sacrificada pela imbecilidade de seus chefes, quanto sejam de censurar os abusos, os crimes e as atrocidades commettidas no territorio francez pelas hordas selvagens da soldadesca infrene de sua magestade o rei Guilherme; violações, assassinatos e crimes de toda a ordem, com que mancharam as dobras dos seus pendões victoriosos; um tribunal serio e que se respeita respeitando a lei e a consciencia, abdica do seu patriotismo para julgar um crime. A França tem peccado muito pela maneira porque acceitou a sua derrota, nem posso louvar nem approvar a attitude da maioria da imprensa, que faria representar ao seu paiz um papel heroico, lançando a um desprezo silencioso o seu potente vencedor. Tinha meio caminho andado para o dia da desforra. Os povos, como tudo se enfraquece gastando-lhes a dignidade, é necessario poupar-lhes este grande elemento de força, que creando o amor proprio faz vingar o patriotismo. A nota enviada pelo gabinete de Berlim ao seu representante n’esta corte mr. d’Arnim, é a meu ver uma consequencia necessaria da decisão do tribunal na causa de Tonnelet e Bertin. Que homem, a não ser um fanfarrão, pelo lado do patriotismo amachucado pela força prussiana, dorido pelos revezes, ensanguentado o coração pelas desgraças recentes do seu paiz, que outro homem digo, não veria n’esta nota do chanceller da Prússia um meio repressivo, obrigatorio e de justiça, de velar pelas vidas dos cidadãos allemães? Quaes sejam as razões diplomaticas que tinham aconselhado o governo allemão a modicas exigencias relativamente á sua posição é incontestavel que as negociações entre os dois governos, teem concedido á França vantagens que talvez ella vencedora negaria á Allemanha. Em quanto estas complicações e humilhações veem do exterior, persiste a assembléa em Versalhes, chegando-se a dizer que o presidente da republica fará uma questão de gabinete, que tanto será necessario para fazer entrar o governo em Paris. A proposito do imperador do Brazil levantou-se uma discussão entre o «Figaro» e a «Liberté». Foi tão galante a accusação como a defeza. O jornal de mr. de Villemessant não concedia ao duque de Alcantara que sua magestade soubesse uma palavra de francez, o que me parecia impossivel, attenta a sua intimidade do imperador com o principe de Joinville. A «Liberté» contrariamente prodiga em concessões scientificas e n’um longo artigo em que se occupou das magestades brazileiras, dizia aos parisienses que as cinco peças da real comitiva podiam discutir em francez sobre liberdade de ensino como madame Simon. Como as minhas cartas teem apenas por fim relatar rumores mais ou menos inverosimeis, depois de lhe ter dito o que ha de official, não deixarei de lhe dizer, que mesmo fóra dos circulos puro-orleanistas, se falla na possibilidade de uma substituição da presidencia da republica, na pessoa do duque d’Aumale. O que é verdade é que, embora as demonstrações pouco animadoras com que os principes foram acolhidos na camara pelo partido radical e republico, teem elles sido objecto de algumas demonstrações publicas, ao serem reconhecidos nas ruas de Paris. Como meio de restauração da França é fóra de duvida que os filhos de Luiz Philippe sacrificando as suas pessoas e o seu partido a não entrar por ora na arena politica, faziam no seu paiz por um acto tal de abnegação, um serviço digno de quem soube supportar o exilio com a dignidade com que elles o soffreram.