Industria aperfeiçoada
Um individuo, muito costumado a viver do alheio, empregando uma astúcia particular, precisava de dinheiro. De que meios se havia de servir para arranjal-o? Depois de meditar por algum tempo, arranja meia duzia de bandeirolas como as que se costumam empregar quando se tracta de traçaes de estradas, assalaria dois companheiros, e apresenta-se n’uma quinta ahi proximo de Ovar. Crava as bandeirolas defronte da casa d’um rico lavrador e principia a fazer medições. O dono da quinta, quando vio estes preparativos, apresentou-se ao engenheiro, e perguntou-lhe o que se tratava de fazer nas suas terras. O engenheiro respondeu, que nada mais e nada menos se tratava, que de uma nova estrada, que atravessaria a sua quinta, e que de certo tinha de ser derrubada casa e eira. O lavrador ficou estupefacto, e depois de contar os desarranjos, que soffria, disse, que desejava fallar em particular com o sr. engenheiro. —Eu pretendo, lhe disse o bom lavrador, que s. ex.ª me faça o grande favor de levar o traçado por outro sitio, doze metros separados da minha casa e eira, porque eu gratifico-o como cavalheiro! —Não póde ser; e eu não sou homem que me venda. —Perdoe-me se o offendi: eu não tracto d’uma compra deshonrosa, tracto d’um negocio favoravel a ambos. —Repito, não me vendo! —Não o quero comprar, quero apenas mostrar o meu reconhecimento. São de louvar esses brios, mas sabe que os governos de hoje não paga aos empregados zelosos... —Tem rasão. Aceito como reconhecimento. O lavrador esfregou as mãos de contente, foi a casa com o suposto engenheiro, abriu uma gaveta e contou-lhe doze libras. O engenheiro ainda fingio alguns estudos, um pouco separadamente da casa; e depois retirou-se muito satisfeito pelo resultado do plano. Poucos dias depois soube o lavrador que tinha sido victima d’um astucioso! A industria chegou a este aperfeiçoamento!