Noticias de Odemira
Em 23 dizem-nos: Festividade—Hontem teve logar na egreja parochial da rica aldeia do Cercal, d’este concelho, a magestosa e imponente festa dedicada a Nossa Senhora da Conceição, padroeira d’aquella freguesia, que todos os annos—e quasi sempre em setembro—alli tem logar. Com effeito, não é no concelho d’Odemira, nem ainda mesmo em todo o vasto campo d’Ourique, que se celebra, com mais esplendor, o dogma da immaculada conceição da Virgem Maria. Dogma só estabelecido de direito no reinado do actual pontifice; mas de facto já antigo em toda a christandade,—especialmente no reino de Portugal, que se poz debaixo da protecção da Conceição da Virgem na epocha gloriosa da nossa restauração. Sobbado, alli correram touros, a cuja funcção não assistimos, nem disso nos ficou pena. Magoa-nos sobre maneira virmos o pacifico povo portuguez tão affeito e amigo de tão barbara brincadeira! A missa foi cantada a vocal e instrumental, e durante ella esteve o S. S. exposto. Subiu á cadeira da verdade o reverendissimo sr. padre Alexandre Ramos Cid, prior da freguezia de Santa Maria da cidade de Beja, que a todos nos deixou surprehendidos e maravilhados. Foi bello o assumpto para o sr. padre Alexandre, mas abrilhantado pelos dotes de sua vasta e profunda intelligencia; pela sua voz clara, insinuante, ás vezes vehemente; pelo seu aturado estudo nas historias romana e judaica—em cujas descripções pasmou os ouvintes—, tornou-se um discurso notável; difficil d’imitar, impossivel quasi de exceder. Fomos ao Cercal de proposito para ouvir o sr. padre Alexandre; não nos arrependemos dos passos que demos: viemos contentes por termos ouvido um pregador, que deixou empenhado o pulpito do Cercal. Ainda tivemos occasião de ouvirmos o mesmo sr. pregador, na Fonte Santa; local distante da povoação do Cercal cerca de dois kilometros e meio, aonde a devoção d’aquelle povo, vae em procissão com a imagem da Virgem, que a tradição popular diz alli ter apparecido a uma pastora. Na Fonte Santa, como no Cercal, a oração do sr. padre Alexandre nada deixou a desejar. Foi eloquente nas comparações da Virgem, forte e energico em descrever suas virtudes, brilhante em animar os fieis no caminho do bem, iracundo e severo em reprehender o peccador impenitente. A procissão recolheu á egreja matriz quasi ás 7 horas da tarde. Nunca vimos espectaculo mais magestoso: homens, mulheres de todas as classes da sociedade, e creanças, formando um conjuncto de mais de 2:000 pessoas, seguiram silenciosas e cheias de devoção, a imagem d’Aquella que tem sido o seu auxilio em todas as occasiões. Á noute, assistimos ao fogo artificial, variado, vistoso, e em bastante quantidade, que muito nos deleitou. Dizem ter sido feito em S. Thiago de Cacem: honra ao artista que o fez. A phylarmonica que assistiu a toda a festividade, foi a de S. Thiago: valha a verdade—parece que o reportorio da dita phylarmonica é bem reduzido! Foram juizes da festa a exm.ª D. Marianna Baptista, esposa do sr. Joaquim Alves de Moura, e o lavrador Francisco Rosa, do Freixo. Ficaram eleitos para 1873, a menina Feliciana Raposo e o sr. José Matheus, da Fonte Santa. Oxalá que os novos juizes, cumpram a sua tarefa (que grande é) com o brilho e grandeza dos annos passados. V.