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África Exterior / internacional · Interpretacção incerta

[ilegível]—Sabbado 13 do corrente, por 4 horas da tarde, José do Calvario, conhecido pelo Catalô, residente em Quintos, assassinou barbara e atrocemente, á punhalada, Antonio Ramos, morador na herdade Grande, freguezia das Neves e sua amasia Maria de Sant’Anna. O assassino foi preso em acto continuo pelo lavrador da Fonte da Areia, José Fragoso, José da Rosa, e José Palminha, que acudiram aos gritos do filho e da filha do morto. São aggravantes as circumstancias de que se acha revestido este atroz attentado. O assassino, que já esteve degredado, por ladrão, premeditou e consumou o crime com o maior sangue frio! A victima Maria de Sant’Anna havia vivido em tempo com o assassino, e quando sahiu de sua casa para a de Antonio Ramos levou alguma roupa que pertencia áquelle, que depois lhe entregou por mandado de auctoridade. Na occasião de Maria de Sant’Anna lhe entregar a roupa parece que trocara com o scelerado algumas razões. D’aqui a premeditação da vingança. José do Calvario, segundo consta, disse diante de alguns individuos que não culpassem ninguem se apparecessem mortos Antonio Ramos e Maria de Sant’Anna, porque elle é que os havia de ir matar ao monte. No dia 12 marchou de Quintos, e chegando ao monte da herdade Grande, entra em casa, encontra descuidado Antonio Ramos, crava-lhe nas costas um punhal, corre em seguida sobre Maria de Sant’Anna e enterra-lhe o mesmo punhal no peito! Sae, brada a uma filha de Antonio Ramos, que mora em outra casa no mesmo monte, e diz-lhe: — Vae ver teu pae e a mana Maria que t’os deixo mortos em casa!! A pobre rapariga ficou como petrificada; mas vendo que o malvado se retirava, reveste-se de animo, chega á porta e depara com dois cadaveres!! Corre e um irmão pequeno, bradando por soccorro e sendo ouvidos por José Fragoso, lavrador da Fonte da Areia, que andava espalhando estrume n’uma terra, contaram-lhe o crime que o assassino tinha commettido. O lavrador chamou dois individuos que estavam trabalhando perto, e munidos de duas espingardas, perseguiram todos tres o criminoso, que conseguiram capturar. Perguntando-lhe o que tinha feito, contou com a maior desfaçatez que havia morto Antonio Ramos e Maria Sant’Anna de que não tinha pena, mas sim dos filhos d’aquelle que ficavam sem pae. José Fragoso e os companheiros quizeram levar o scelerado ao logar do delicto mas o facinora lançou-se ao chão e declarou que de modo nenhum lá ia. Quando lhe pediram as armas com que havia feito as mortes, apresentou duas navalhas, mas sem vestigios de sangue; e como lhe observassem por esta circumstancia, que não eram aquellas, declarou que as tinha feito com um punhal que lançara para dentro de um pego. Conduzindo o criminoso ao pego indicado foi ali encontrado o punhal. Veio em seguida aquella fera para a cadeia, e as auctoridades procederam como lhes cumpria. Ouvimos que Maria de Sant’Anna estava gravida; mas não sabemos se isso foi verificado no exame e corpo de delicto. No dia 13 foi o sr. administrador deste concelho a Quintos e mandou atravessar a porta da morada do facinora, que, sendo reconhecido por ladrão, é de suppor que lá tenha alguma cousa que lhe não pertença. O malvado, repetimos, já esteve degredado, e diz que sabe como as cousas por lá correm, e por isso não lhe importa ir para a Africa!!