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Artigo

Tres mundos

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Europa Exterior / internacional · Interpretacção incerta · Romano

Lemos um livro que ha pouco tivemos a honra de receber, e que n’essa occasião agradecemos ao seu auctor o ex.mo sr. D. Antonio da Costa, e por isso podemos hoje aconselhar aos nossos assignantes a compra do livro o qual vae abaixo annunciado. Em 349 paginas ninguém diria tanto nem melhor. É um estudo social de que ha muito a aproveitar na epocha actual. O mundo romano de que o auctor se occupa mais largamente é estudado com consciencia e sciencia. Na deducção logica e historica mostra o auctor como o mundo romano se engrandeceu e fortaleceu cada vez mais pelo seu valor e virtude até ao ponto em que o luxo, a devassidão, a prostituição da mulher, da familia e das instituições levaram o maior imperio do mundo á sua completa ruina. O mundo barbaro ahi é desenhado com a sua rudeza, ignorancia, ferocidade e independencia individual de um modo a não deixar nada a desejar. Entre este extremo e rude amor da liberdade individual e o extremo opposto de escravidão romana a humanidade deseja a luz e a luz apparece como per encanto com o mundo christão que offerecendo as mãos aos dois mundos os fraternisa pelo amor, e os leva a ceder cada um da sua parte o que constituia o excesso impossivel no estado social para virem ao justo meio em que a humanidade se desenvolve, e é feliz, caminhando sempre nas conquistas do ideal que antevê mas que será para ella o seu pomo prohibido, não o podendo jamais realisar. Pedimos licença ao auctor para honrar este jornal com a transcripção do seguinte: «Assistimos ao desmoronamento de um imperio que tinha absorvido o mundo pelo valor do seu braço casado com o poder das suas virtudes, e patentearam-se as causas que derribaram o gigante, mais suicidado do que vencido. Presenciamos outro imperio de povos differentes vir occupar o logar que as circumstancias e as suas qualidades lhe conquistaram. Vimos o apparecimento de um poder moral, que lançando-se no meio da luta ajudou a salvar a sociedade. Estes elementos, primeiramente dispersos, depois confundidos, vieram por fim a ligar-se, produzindo a ordem. A luta durou seculos, e foi assombrosa. Durante ella o mundo, agitado nos seus fundamentos, dir-se-ia que passava por um sonho. As crises porém não são eternas. Adormeceram nas trevas; acordava no esplendor de um sol. A Europa amanhecia christã. Os povos fundavam as suas nacionalidades á sombra do christianismo. Tres mundos tinham formado um complexo que exprimia como pensamento social a individualidade humana. Á unidade da conquista succedia a nacionalidade. O homem era substituido á classe. D’aquelle cahos saiu uma obra formosa. Cada um d’aquelles mundos produziu uma força para a sociedade que nascia. O romano deu-lhe a tradição e a experiencia, o christão deu-lhe o espirito e a educação social, o barbaro deu-lhe o impulso que refundia povos e que fortalecia as gerações. O mundo velho comprehendera o estado, mas não a humanidade. O ente humano de qualquer dos sexos, de qualquer das condições, só agora se conhecia livre. As instituições liberaes, como hoje as entendemos, não eram da epocha, mas d’aquella natureza independente germinava o principio da emancipação individual. Foi então que o espirito humano, respirando da longa oppressão em que as trevas o tinham trazido, viu raiar uma luz, que, imperceptivel no começo, brilhante depois, ambicionava alumiar o mundo: a civilisação pela justiça. E a alma da humanidade, chorosa e triste com tanto padecimento, rio-se e alegrou-se. O mundo novo mandava-o Deus caminhar.»