F. de Sá Noronha
Tivemos nós os bejenses, a fortuna de ser visitados pelo distincto maestro portuguez. A nossa sociedade bejense, sabendo disto, lembrou-se de dar na noute de 16 um sarão, para o qual convidou o illustre compositor. Na parte musical, as honras da noite couberam ao eximio maestro Noronha que nos appareceu com a sua magica e inimitavel rebeca. Todos sabem qual tem sido a infeliz sorte do applaudido auctor do Arco de Santa Anna, que o é tambem de muitas outras operas suas como—Beatriz de Portugal, Christovam Colombo etc., que o nosso chamado real theatro de S. Carlos se recusa constantemente a fazer-nos conhecer. A posição, relativamente obscura do sr. Noronha, para a qual tambem concorre a excessiva modestia d’elle, é bastante indecorosa para o nosso paiz... Todos o sabem ha muito tempo... O sr. Noronha tocou quatro peças de sua composição pela ordem seguinte: 1.ª Phantasia de concerto sobre dois motivos da Treviata de Verdi; 2.º Capricho imitativo intitulado Ai Jesus; 3.ª Phantasia de concerto sobre motivos da Vivandeira (fille du régiment) de Donizetti; 4.ª Serie de valsas intitulada Carnaval de Lisboa. Dizer que o sr. Noronha é um dos mais insignes violinistas, que conhece todos os recursos e todos os segredos d’aquelle instrumento musical, e que sabe servir-se d’elles para se fazer admirar e applaudir; seria dizer pouco. O sr. Noronha, alem de tudo o que bastaria para fazer a reputação de um concertista, tem aquelle delicadissimo sentimento musical, que distingue e caracterisa o verdadeiro genio artistico. A magica poesia e a inimitavel suavidade com que aquella rebeca falla ao coração, é mais que admiravel... é extasiante! O sr. Noronha comprehende que a musica, considerada como sciencia musical, é aquella poetica linguagem dessas mysteriosas e reconditas ondulações do sentimento, que as palavras de um idioma nunca poderiam expressar... O sr. Noronha sabe que o homem, quando contempla em quieta collina o ciciar da aragem, ou quando observa sobre escarpado rochedo o sibilar do vento, ou quando escuta em virente e florida campina o sussurrar da folhagem; o homem nessas circumstancias tem um vago e indeterminado sentimento das relações que elle tem com a natureza—sentimento que elle percebe mais ou menos distinctamente, mas sem o poder definir; porque essa linguagem divina do que ha de sublime na natureza consta de sons que não são palavras, porque são infinitamente mais delicados, mais mimosos, e mais poeticos que qualquer idioma poderia ser. O extasiante violino do sr. Noronha seria capaz de dizer que tudo isto existe a quem mesmo o não tivesse ainda experimentado!... A menina Guedes tocou no piano umas variações de Frederico Beyer sobre motivos de differentes operas. Satisfaz cabalmente attendendo á sua pouca edade e tempo de estudo. A seu tio e mestre o nosso amigo o exm.º sr. Fernando Guedes damos os nossos parabéns. A menina Maciel desempenhou em um dos intervallos umas variações sobre um thema da «Sonambula». Não deixou nada a desejar e conquistou bastantes applausos. A excellente banda do regimento 17 de infantaria offerecida á direcção pelo digno coronel do regimento, abrio a reunião-concerto com uma symphonia de varias zarzuelas que teve bem merecidos applausos; ao chá tocou um duo do Nabucadonor, e o repertorio de dança que apresentou era mimoso. Gratas recordações deixou a noite de 16 do corrente aos socios da sociedade bejense. Que a direcção lhes proporcione muitas assim.