Trovoada e desastre
Dizem-nos de Aljustrel: «Nos dias 5, 6, 7 e 8 do corrente fizeram aqui terríveis trovoadas que causaram muitos estragos nas vinhas que ha dois annos se haviam plantado para o lado do poente, e que estavam muito boas; assim como em searas de differentes lavradores; cahindo a chuva em fortes torrentes acompanhada de muita pedra, chegando esta a ter a altura—n’um sitio junto a Messejana, aonde cahiu com mais força—de dois metros!!! que parecia uma grande marinha de sal, e hoje ainda se conserva grande parte d’ella que se não derreteu. A chuva foi tanta que fez encher os barrancos e ribeiras em grande ponto. Nestes quatro dias, deu-se noticia de cahirem mais de doze ou quinze faiscas electricas, que partiram muitas arvores, e hontem 8 vindo, pela uma hora da tarde, uma pobre mulher de levar o jantar a seu marido que andava trabalhando no campo, e passando pelo moinho, que fica no caminho de S. João do Deserto, na occasião em que tres grandes trovoadas se combatiam n’aquelle ponto, chegou-se para junto da torre do moinho afim de se abrigar da grande chuva que cahia, e em menos de dois minutos uma sentelha bate no mastro do moinho, mette-se por elle, passa ás vellas e depois de fazer cousas incríveis, metteu-se pela parede abaixo e sahio d’ella na altura de dois metros junto á cabeça da desgraçada, e tostando-lhe o lado direito da cabeça a fez cahir morta, com uma criança de peito nos braços, sendo muito para admirar, que a criança ficasse viva, tendo-lhe a sentelha, ou quer que foi, andado de roda da cintura tostando-lhe a pelle que hoje está em carne viva, sem lhe queimar o facto nem mesmo a própria camisa:—este acontecimento tem enchido de terror toda esta gente. Ha casos celebres! quando o marido acabou de jantar com a mulher disse-lhe: vai-te depressa e não te abrigues ao moinho porque é sitio perigoso: a mulher vem correndo, mas elle lembrando-se que ella não faria caso da advertência que lhe acabava de fazer, e vendo que a agua cahia a jorros e os relampagos não cessavam veio em seu seguimento; chegou ao moinho, e encontra a infeliz morta em cima da creança, que morreria também suffocada debaixo da mãe, se o pai por um presentimento inexplicável, não a viesse salvar!»