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Contrabando

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Salvada · Portugal Interpretacção incerta

No dia 25 do corrente, foi capturado em Albernoa, pela fiscalização, Joaquim Ramos e apprehenderam-lhe 2 pacotes de tabaco procedente de Gibraltar, comprados a um dos contrabandistas que alli se achavam e que fugiram ao approximar-se a fiscalização. O Ramos está nas cadeias d’esta cidade. No dia seguinte o sr. Oliveira, digno chefe de secção, tendo noticia que na Salvada estavam tres contrabandistas vendendo tabaco publicamente, dirigio-se alli acompanhado d’alguns guardas. As suas diligencias, porem, não tiveram resultados. Passados alguns instantes viram caminho d’aquella povoação um dos contrabandistas chamado Manoel Joaquim por alcunha o Mira olho, da aldeia de Quintos. Prendeu-o e encontrou-lhe uns 305$000 reis producto do tabaco já vendido. Mandaram-no em paz. Em seguida o sr. Oliveira tomou algumas medidas e retirou-se d’aquelle logar acompanhado só por um guarda e foi dar varejo a algumas casas da aldeia. Em todas as partes onde sua s.ª entrava postava-se á porta de espingarda em punho o tal Mira olho (que segundo nos dizem é temido n’aquelles sitios). Quando o digno chefe estava no exercicio de suas funcções entra repentinamente o tal valentão e dá-lhe um empurrão. Sua s.ª, offendida tão brutalmente, advertio-lhe que se praticasse segunda vez egual feito usaria d’outros meios ao que aquelle respondeu engatilhando a espingarda fazendo pontaria a quem o admoestava d’uma falta tão grosseiramente commettida. Devido sem duvida a um movimento rapido de sua s.ª, e ao auxilio do guarda, deveu a vida. Lançou mão do cano da arma e puchando da espada obrigou o valentão a render-se. Emquanto se deu parte do succedido á auctoridade local, o audaz contrabandista abriu, sem que fosse visto, uma navalha de ponta e mola e lançando mão da espingarda que momentos antes lh’a arrancaram arremessou-se segunda vez ao sr. Oliveira. Deu-se então uma scena que poderia ser lugubre se não fosse a ligeireza e prudencia d’este cavalheiro, que por milagre não foi victima. O guarda vendo que corria risco a vida de seu chefe, mataria o malfeitor se sua s.ª o não impedisse. Comparecendo a auctoridade e dando-se as providencias que o caso exigia veio o aggressor debaixo de custodia para as cadeias d’esta cidade. Não é a vez primeira que este heroe tem estado nas mãos da justiça e uma d’ellas por crime de homicidio voluntario. Bom será que receba a paga das suas façanhas. O sr. Oliveira escapou milagrosamente á furia d’aquelle malvado, e é digno do maior elogio pela sua prudencia e moderação.