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Alentejo · Lagos · Odemira · Portugal Correspondência · Igreja

Odemira, 24 de agosto de 1874. Tivemos aqui, sabbado e domingo, alegres e ruidosas festas á Virgem Mãe da Piedade. Alguns devotos d’esta villa, contando-se n’esse numero os nossos amigos e srs. Antonio Correia, J. Modesto d’Almeida e José de Jesus Guerreiro, animados e possuidos do melhor desejo de mostrarem seus respeitos e culto á imagem de Nossa Senhora da Piedade, alem do rio (que tão venerada é por estes sitios) impetraram e alcançaram do ex.mo sr. governador d’este bispado, a necessaria licença para, livres de quaesquer obstaculos, poderem dar cumprimento ao seu voto promovendo uma festa áquella Senhora. Com effeito, chegada a manhã de sabbado, se deu começo á funcção vindo a Senhora da Piedade processionalmente da sua ermida para a matriz de Santa Maria d’onde é filial. Ás 11 horas teve logar, n’aquella egreja, uma missa cantada, vocal e instrumental, achando-se o Santissimo exposto, e subindo á cadeira da verdade o reverendo padre Landeiro, de Lagos, que satisfez cabalmente. Finda a missa sahiu o Santissimo em procissão, pelas ruas da villa, antecedido pela imagem de Nossa Senhora da Piedade, e seguido pela phylarmonica e immenso povo. De tarde houve tourada, espectaculo muito do especial gosto dos habitantes d’esta parte do Alentejo, e que não sei porque acompanha sempre os principaes festas religiosas. Á noute, lançou-se muito e variado fogo de vistas, de bello effeito, acompanhado de musica, e rematado pela ascensão d’um balão, devido á habilidade e pachorra do sr. doutor Abel. A musica, ou antes, a phylarmonica desempenhou sempre lindas e variadas peças do seu repertorio. Domingo fez-se terceira procissão sendo a Senhora da Piedade transferida para a sua ermida, onde, a horas do costume, se celebrou outra missa vocal e instrumental, orando ainda o sr. padre Landeiro, que nos dizem ter muito agradado. De tarde, tocou a phylarmonica, no adro da ermida, cujas circumvisinhanças se achavam povoadas de devotos e devotas. Terminaram os festejos, na noute, com a queima de mais fogo no adro de Santa Maria. Toda a festividade foi feita de esmollas que deram á Senhora, e que se orçam em mais de 200$000 reis, tendo-se gasto com os festejos quasi igual cifra. É grande, e arreigada está no amago destes povos, a devoção para com aquella Senhora; a ponto de se receberem esmollas valiosas, como: vaccas, fructas, bolos, dinheiro etc. Todos os annos, no dia 8 de setembro, ali tem logar uma pequena festa, á Senhora, feita pelo reverendo prior da freguezia, e que por isso percebe durante o anno, e principalmente n’aquelle dia, numerosas oblatas que ascendem a alguns centos de mil reis. É para notar que assistindo aos festejos de 2 a 3:000 pessoas, não houvesse o mais pequeno desaguisado: isso prova a cordura do povo odemirense, hoje tido, e com razão, por um dos mais pacificos e pacatos do Alentejo. A musica, dirigida pelo sr. João Antonio de Carvalho, andou sempre bem, merecendo assim o honroso logar e estima em que, com justa causa, é conceituada.