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Braga · Coimbra · Porto · Portugal

Poucas e de pequena importância são as noticias politicas d’esta terra. Apesar de ter esta cidade um dos grandes centros politicos de Portugal as cousas aqui fluctuam á mercê da tempestade; e Coimbra descansa hoje á sombra dos grandes feitos dos seus maiores. A antiga questão da Misericordia trouxe por algum tempo preoccupados os espiritos, mas em breve voltaram ao seu estado tranquillo. Depois veiu a questão da pena de morte de que se sabiam limpando as mãos á parede; hoje deixou a politica monotona e aborrecida para entrar n’outra esfera mais bonita e mais seductora—a esphera theatral. O ill.mo sr. D. Manoel Aragonez lembrou-se do que esta cidade era a terceira cidade do reino, trouxe para aqui uma excellente companhia composta de bellos artistas. A excellencia das peças do seu bello reportorio podem-se bem avaliar attendendo a que esta companhia deu aqui onze recitas, cousa de que nenhuma companhia se pode gloriar. Com effeito, não só as illustres actrizes, como os seus sympathicos actores e o seu excellente corpo de baile, são dignos de menção especial. D. Sebastiana Baiena, primeira dama da companhia, senhora illustre pelo seu rigido comportamento e casada com o director da companhia, é decerto uma actriz excellente. Apossando-se com arte dos seus papeis faz crer aos ouvintes que as composições que sente ao desempenhar qualquer dos seus difficieis papeis são reaes e verdadeiras. Quando uma companhia tem assim uma primeira dama nada tem a receiar dos innumeraveis ouvintes. D’aqui apertamos nós a mão á illustre dama e lhe auguramos um bello futuro. D. Luisa Aragonez filha adoptiva do illustre director da referida companhia sabe-se muito bem sahir dos papeis que lhe são distribuidos; e o seu caracter naturalmente doce e ingenuo attrae immediatamente a sympathia dos ouvintes. Seguem-se depois os actores, rapazes extremamente delicados, e de quem se póde ser verdadeiro amigo. D. Carlos Rodrigues, esse moço agradavel e d’um bello coração, Vallés, figura sympathica e de extrema bondade, Lopes, o cavalheiro austero dos nossos tempos que se foram, são todos bem dignos de figurarem n’aquella excellente companhia. O corpo de baile é composto de D. Pedro Yevenes e D. Pura, D. Raphael e Marcellina Oliveira. O primeiro dançarino, D. Pedro, é já assaz conhecido em Portugal; os jornaes da capital, do Porto, de Braga e Coimbra teem já fallado d’este artista que merece ser posto a par dos primeiros. D. [ilegível] teve uma escola de dança e no palco mostra logo o quanto é conhecedora da sua arte. D. Raphael dança bem, e Marcellina Oliveira tambem cremos que não dança mal. Não tivemos nunca occasião de poder bem avaliar esta dançarina. Sabiu hontem d’esta cidade a companhia, e lá se encaminha, para Torres Novas, onde decerto hão de ser bem recebidos se porventura os seus habitantes forem amantes do bom. Que a companhia seja feliz é o que muito desejamos, e os nossos particulares amigos Furto e Moreno recebam um aperto de mão d’um seu admirador. A. O.