Correspondencias—Beja 29 de julho de 1875. Sr. redactor
Vou hoje narrar um dos maiores escandalos commettidos durante a desgraçada e lastimosa gerencia da direcção Bate forte. A medida posta em execução com o maximo descaramento e cynismo é surprebendente e chistosa. É essencialmente agradavel, á primeira vista, o panorama que produz. É bello, doce a todos os paladares e maravilhoso aos seus admiradores. Nunca esta aristocracia balofa foi tão applaudida. Nas proximidades do baile de carnaval, tiveram a feliz ideia de dirigirem cartas a todos os individuos que se achavam em debito, para que assim se fizesse, com mais facilidade, face ás despesas. Louvei muito a maneira zelosa e justa como se tinha andado. Mas nas cartas que suas s.as dirigiram, pediam, no caso de falta de meios os devedores não satisfazerem as quantias alludidas n’uma só prestação, indicassem a melhor maneira de solver os seus debitos. Um individuo, que pessoalmente me contou, apressou-se a responder no dia immediato, apresentando as razões porque não podia entrar de prompto com a quantia exigida, mas que no mais curto tempo estaria quite para com a sociedade. Qual era pois o dever da direcção? Era deliberar se devia ou não acceitar as condições apresentadas. Pois não se deu isto. O mesmo individuo como não recebesse resposta á sua carta—e declaro-lhe, sr. redactor, que era redigida em termos mui delicados e dignos de respeito—entendeu, e muito bem, que aquella corporação concordava plenamente com as ponderações expostas. Comtudo cinco dias depois, o mesmo sujeito dirigiu-se á sociedade acompanhado d’outro socio, com tenção de procurar o sr. presidente ou director de semana, e pedir explicações sobre o caso. Mas oh! que surpresa que lhes estava preparada ao entrarem na sala do bilhar!? Que maravilha! Era nem mais nem menos do que seus nomes e demais consocios, que receberam cartas, estarem mettidos e pendurados n’um quadro expostos á irrisão publica e degradação perpetua. Que vergonha! Que miseria! Estes srs. tão infamemente offendidos na sua dignidade, pediram, acto continuo, em defeza da moralidade e da verdadeira justiça, formal satisfação á maioria da direcção que se achava presente. Estes cavalheiros responderam que tinham procedido em harmonia com os estatutos. Mas que? suas s.as mais uma vez faltavam á verdade, e ao respeito á lei e aos homens! mais uma vez praticaram arbitrariedade e passaram pelas forças caudinas! Eis o que reza o artigo 9.º: «Todo o socio que deixar de pagar duas quotas mensaes, será avisado, por escripto, pelo secretario da direcção, para fazer aquelle pagamento no prazo de oito dias e não o satisfazendo o seu nome será patente em uma das salas do Club por espaço de oito dias, findos os quaes sem que tenha satisfeito a divida, ficará excluido do Club.» Ora, já vê, sr. redactor, havia apenas cinco dias que se fizera a expedição das cartas, ainda faltavam tres, logo que auctoridade tinham os doutos, os distinctos jurisconsultos, os fidalgos de motim, para assim procederem? Isto é horripilante. Por quanto se paga o exame que sofreram os individuos desdenhosamente apresentados no quadro? Respondei respeitaveis Brutos! Que indigno que isto é!! As victimas d’aquella devassa medida, depois de censurar bruscamente os directores, empenharam-nos para que dentro de dois segundos se retirasse da sala aquella nojenta obra, filha das suas excellentes reproducções e obrigaram-os em seguida a rasgar a vergonhosa papeleta, sob pena de exigirem uma assembléa geral e passarem pelo doloroso desgosto de ver os seus actos serem julgados e punidos com o maior rigor como justamente mereciam. Os heroes não tiveram outro remedio senão fazerem o que havia de ser, caros leitores, figura de... de... cera. Finalizado este incidente inesperado, quero dizer, depois de azorragados sem piedade, os temiveis Roldões, desfizeram-se em mil desculpas appellando para o seu pouco... cuidado na interpretação do artigo 9.º (ou talvez, e assim é mais plausivel, o pouco conhecimento que suas s.as tinham d’aquelle artigo) e a precipitação demasiada como se conduziram neste brinquedo. Quem te manda a ti albardeiro tocar rabecão? Magnanimos directores! no seguinte n.º apparecerá mais petisco. Sou, De v. etc. Um socio indignado.