Correspondencias
Castello Branco 21 de novembro de 75. A dia de ter logar no edificio dos paços d’este concelho o apuramento geral dos votos da eleição da camara que teve logar no domingo passado; dois partidos se batiam nestas eleições a que aqui denominam Pretos e Brancos, não devendo esquecer que os Brancos se preparavam para esta luta desde agosto passado e julgando que Pretos se temeriam de fazer opposição doze dias antes da campanha, o que não obstou a que ganhassem a eleição; já o sr. administrador do concelho tinha debaixo de mão, dizia-se, todos os seus administrados; já o sr. [ilegível] fungava com a mesma satisfação a sua pitada dizendo: o [ilegível], os pretos levam uma derrota monumental, perderá por 400 votos; se esta eleição se perder perde-se o nome e a fortuna dos [ilegível]!!! já o nosso caro Agostinho Fevereiro tinha quasi abandonado o acetato de chumbo e mais drogas da sua botica, julgando-se repimpado na sua cadeira camararia, quando no ultimo dia d’[ilegível] uma lança para o partido preto a maioria de votos. Começaram então as angustias; o administrador ficou com cara de quem ha um anno é atacado de febres typhoides, o meu amigo da derrota monumental ficou com um monumento diante dos olhos maior do que a estatua equestre de D. José I, que o não deixou nesse dia nem jantar, nem cheirar, e nem dormir; e o sr. dr. Godinho começou a vomitar protestos sem nenhum fundamento, como em plena assembléa lhe foi provado, mas que apesar d’isso sempre tem algum prestigio; talvez façam com que os fundos publicos subam emquanto governarem os brancos. Terrivel desengano foi este, sr. administrador! de nada lhe valeram os 20 ou 25 agentes que trazia empregados na campanha eleitoral! 3 sapateiros, 4 barbeiros, 1 correieiro, 2 pifaletes encapotados, 1 rebucador, 3 cristãos etc., para que tantos [ilegível] labores ficassem todos com uma [ilegível]. Um preto.