Voltar ao arquivo
Artigo
Arqueologia e patrimónioEconomia e comércioMeteorologia e fenómenos naturaisPreçosSaúde e higiene públicaAgriculturaComércio localDestruição de patrimónioPreços e mercadosRuínas e monumentos
Lisboa · Portugal Correspondência · Interpretacção incerta

A crise bancaria, diz o correspondente do Diário Progressista, reflecte já os seus effeitos na praça de Lisboa, e todos os estabelecimentos bancarios dobraram as amarras, e adoptaram outras precauções de segurança, na previsão do que possa succeder. As operações monetarias paralyzaram de todo. Não ha quem desconte uma letra, por pequeno que seja o seu valor, e por curto que seja o prazo dos seus vencimentos. Dos bancos teem sido levantadas importantes sommas dos depositos, e se este movimento não serenar, é de receiar complicações graves, que aliás somente serão resultado do panico. Para que se veja até onde chega o retrahimento dos capitaes bastará dizer que, segundo corria hontem na praça, o governo teve necessidade de fazer um supprimento de 30 contos para pagar uns restos de festejos, e só pôde obter aquella somma a 14 por cento de juro. Todos os animos se mostram dispostos a promover e aceitar uma combinação razoavel para conjurar a crise; mas tambem são geraes as censuras contra o governo, por não haver tomado em tempo as providencias que devia tomar, e que por mais de uma vez lhe foram indicadas, para o effeito de evitar a catastrophe que estamos vendo. Quando se manifestou a febre da jogatina dos fundos hespanhoes, quando de cada canto surgiam bolsins, o governo folgava, jogava chascos á opposição e applaudia-se por aquellas brilhantes manifestações do credito e da prosperidade publica. Debalde se pediu um regulamento de bolsa, que pozesse cobro ás especulações desordenadas e ao jogo fraudulento. O governo a nada se moveu, deixou a jogatina livre, e nem sequer se resolveu a tomar providencias em vista de um facto succedido em Lisboa com um capitalista que se recusou a satisfazer os seus encargos de liquidação fiduciaria, o que era o prenuncio do que ora está succedendo. Jogavam milhões de escudos com animo tão despreoccupado, como se se tratasse de pinhões. E a fraude, e o grande perigo d’este jogo, estava em que, nem os vendedores possuiam os fundos que vendiam, nem os compradores possuiam fortuna em correspondencia com os valores dos fundos comprados. Qualquer individuo chega á bolsa, e sem ter um unico titulo na carteira offerecia á venda dous ou tres milhões de escudos em titulos de divida hespanhola para a liquidação da proxima quinzena, e qualquer outro, sem possuir em caixa talvez meia duzia de contos de reis, comprava esses milhões de animo alegre e descuidado. Chegado o prazo, liquidava-se a differença entre o preço da venda e a cotação do dia, e essa differença era paga pelo comprador ou pelo vendedor, conforme o saldo era contra um ou contra o outro. Assim era facil jogar em milhões. Vendia-se o que não existia, porque a venda era sobre um objecto imaginario, e mero pretexto da jogatina. Em ultima analyse aquellas operações de bolsa correspondiam a um jogo de azar, em que se aposta pela alta ou pela baixa, do mesmo modo que na roleta se aposta pela preta ou pela vermelha, pelas maiores ou pelas menores. Para isso servia um regulamento de bolsa, e se os vendedores fossem obrigados a apresentar os titulos, e os compradores a dar uma caução por uma parte do preço não se fariam essas vendas phantasticas, que foram arrastadas ao exagero, e que são a fonte principal da crise que estamos soffrendo. Mas o governo nada quiz ouvir, porque os resplendores falsos d’aquelle joguinho serviam-lhe para se ataviar com as glorias de fomentador da prosperidade publica. Os resultados ahi estão patentes, e oxalá não vão mais longe. Agora são os apuros para todos: apertos para o thesouro e ameaça de ruinas para o commercio. E’ o balanço de cinco annos de prosperidade excepcional! é o balanço de cinco annos de imprevidencia e desatinos, que por si annullaram todos os beneficios da sorte.