Depois de um espectaculo em que o publico sahe do theatro plenamente satisfeito, como succedeu quinta feira em que subio á scena El Relampago, é difficil dar em seguida recita que deixe os espectadores agradavelmente impressionados; o sr. D. Manoel Larripa porém, que sabe dirigir uma companhia, que observa a platea e conhece portanto quem, em certas e determinadas noites a frequenta, prepara espectaculos no genero que a maioria dos frequentadores melhor aprecia, ou antes mais gosta, e consegue deixal-os com vontade de tornar ao theatro. Sabe explorar uma casa de espectaculos o sr. Larripa e nisso vamo-nos bem e melhor á companhia. Foi escolhido o espectaculo de domingo. Abrio-o a finissima comedia em 1 acto El ultimo figurin, que foi posta com esmero. Scena bem adornada, toilettes da dama explendidas e no vestir das demais figuras todo o rigor. Os interpretes da comedia foram as sr.as Blanco e Lacida e os srs. Larripa e Blanco. Na parte de declamação applaudimos todos, no canto só a sr.ª Blanco. Não sabe mais senão fazer justiça. Seguiu-se La gallina ciega. Ha zarzuelas que basta o desempenho da partitura para terem bom exito; La gallina ciega para o ter é necessario que aquelles a quem os papeis são distribuidos cantem e declamem bem e sobretudo requer orchestra firmissima e completa. É uma zarzuela difficil e a Arderius, em Lisboa, ouvimos, fallando-se da zarzuela em questão, dizer te tengo miedo. Arderius é um maestro: fallou uma auctoridade, e se pesarem bem a phrase que deixámos sublinhada poderão avaliar as difficuldades com que se lutou domingo para que a partitura do maestro Caballero tivesse um desempenho regular. Trabalharam muito; muitissimo os actores; mas podem dar-se por bem pagos de tudo pelo bom acolhimento que o publico lhes fez. A musica da zarzuela é puramente hespanhola e alguns numeros foram bem. O duetto de baixo a baritono, no primeiro acto, Ckto! Valancio! Aprieta! aprieta! foi bem cantado especialmente pelo sr. Aguado e o bem que andou absolve-o da maneira por que no quartetto se houve. Temos no mesmo acto o duetto de tiple e tenor, Soy [ilegível], que valeu uma estrondosa salva de palmas ao sr. Benitez e á sr.ª Lacida e o tercetto Cavallero, Senorita, de tenor, baritono e tiple, que foi regularmente; o que porém causou enthusiasmo foi o tercetto do segundo acto, que Caballero fez seu e intitulou Es muy ermaño, Es su ermaña, Soy su ermaño, tercetto de tenor, baixo e tiple em que a sr.ª Lucida foi, a começar da loucura até ao desmaio, freneticamente applaudida. Hontem tivemos a comedia em 1 acto D. Jacinto e a zarzuela em 3 actos Marina. D. Jacinto é uma boa comedia e o seu enredo de uma certa originalidade prende a attenção do espectador e tem um desfecho graciosissimo. Entram quatro figuras apenas e completo só tem um papel — o soldado — a que o sr. Larripa soube dar conscienciosissima interpretação. Seguiu-se a Marina, dois actos que formam o melhor florão da corôa de Arrieta. É um bouquet de gosto e de inspiração a partitura, o libretto um primor litterario. As honras da noute cabem ao sr. Larripa e ao sr. Benitez. O sr. Benitez (Jorge) nunca o ouvimos cantar melhor. No 1.º acto soltou um claro e sonoro si bemol que se para muitos passou despercebido para outros não o foi e as palmas que teve, posto que frouxas, receba-as o artista com toda a consideração, porque foram dadas por quem sabe avaliar o seu trabalho. No D. Castro Tribulete, do Cachupin, e no Gaditano, da Tramoya, já o sr. Larripa havia mostrado que era um bom actor. No Roque da Marina porém patenteou todos os recursos de que dispõe na scena. Foi magistralmente. O typo de marinheiro reproduzio-o com a maior fidelidade. Nas mais pequenas coisas, o talhe da barba, o enrolado da facha, o nó da gravata, o cachimbo, tudo emfim revellava grande estudo, o maior escrupulo. Faz gosto ver assim uma figura no palco. Teve o sr. Larripa scenas felicissimas, como a do primeiro acto em que conta os seus amores com Roberta, e na da bebedeira, no segundo, satisfez aos mais exigentes. Receba o sr. Larripa com os applausos publicos os nossos sinceros parabens. A sr.ª Lacida (Marina) estranhámol-a. Esperavamos que tirasse na romanza e aria do primeiro acto todo o partido e que no quartetto do segundo, n’aquelle trecho mimoso e suavissimo, cantasse como de outras vezes, mas não succedeu assim. A sr.ª Lacida, com magoa o dizemos, não parecia a mesma; nem voz nem acção. Esteve infelicissima. Os coros só foram bem no segundo acto — na abertura A beber. No mais andaram como Deus foi servido. Cantaram, permittam-nos que usemos das palavras do velho Roque, como Sacristanes, principalmente o final do quartetto do primeiro acto, quando deviam ter Chantres. Todavia não se pode dizer que a Marina cahisse. Houve uma ou outra sombra e do seu desempenho pode dizer-se como de certos dias de maio — pardos, mas sempre formosos. Domingo repete-se El Relampago. Quem faltará ao theatro?
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