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Moura

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Moura · Portugal Correspondência

Dialogo na villa de Moura. F.—Não sabes que a divisão da coitada fez com que a infallibilidade musical tocasse varias peças do seu repertorio?! F.—Que peças foram? F.—Uma peça complicadissima da Giroflé-Giroflá annunciou á camara que na rua... vive ainda, tolerado pelo Deus bom, o rei dos musicos; aos cantos..., onde nas noites de grande gala se accende o planeta Marte, cuja luz vermelha faz lembrar um vidro enfumaçado, está o Ferra Braz; e na rua de... o rei Zabumba. F.—Não te comprehendo?! F.—Estes deuses archeologicos cheios de piupomees, em torno dos quaes giram outros e outros sóes; do infinito dos quaes é satellite rei dos musicos, mostram-se ardentes defensores da conservação da coitada, e á mais leve picuinha vão buscar uns raios velhos, que ainda estão no dr.... mas que não ardem a cacete, por causa da humanidade. F.—Cada vez te percebo menos?! F.—Aquelles srs. que se insurgem contra a desamortisação, a liberdade da terra, contra o arroteamento dos terrenos incultos, e oppõem a maior reacção ás medidas mais rasgadamente liberaes. F.—Já sei. F.—Sabes que querem dar bordoadas na camara, como se ella não fora filha de Deus! F.—Dizem por esse mundo tanta cousa... F.—Sim; dizem que a coitada é um legado, que ha 300 annos uma F. Dona deixou aos carpinteiros, torneiros, livreiros, encadernadores, sapateiros, typographos, impressores, e fundidores de typos: é o legado mais completo e generoso que a caridade podia offerecer aos artistas. F.—Mas quem se oppõe a isso? F.—Os taes deuses, soes e satellites dizem, que oppondo-se á divisão, transmitem aos seculos vindouros um nome abençoado pela gratidão da posteridade. F.—Deus te salve rei dos musicos...! F.—Este maganão disse, ha pouco, que não tornava a fazer parar o sol, como fez no tempo d’aquelle mandrião de Josué que nunca soube fazer as cousas com limpeza; mas que havia de tirar de tombo da camara cópia do tal legado da coitada por um escrivão de direito, porque desconfiava que o da camara era turco, e que um testa de ferro levaria o requerimento á camara! F.—Mas porque será tanta azafama? F.—É porque na primavera não tem onde apascentar o gado, e eu ouvi dizer, já para ahi, ás boas linguas, que ha herejes que fallam lingua bunda, a quem a coitada deixa mais de 300 mil reis...! F.—Ser turco é peior. F.—Peior é não se intender o despacho da camara e ser preciso consultar o oraculo. F.—É porque não requereram em termos. F.—Oh! com os diabos, será possivel que Jupiter, rei dos musicos e rei Zabumba não decifrem o despacho camarrio?! F.—Só tocando-se uma peça de Offenbach. F.—Vão deixar a camara e coitada, protestando deixar a carta constitucional e a liberdade, e vão representar o paiz dos mortos. F.—Pois a terra lhe seja leve. F.—Sabes o que eu te digo, é que causa nojo ver um scenario tão triste. Não sabem estes myopes que ladram á lua e que acima de tudo e de todos está a lei. A camara fazendo a divisão da coitada, cumpre a lei e attende aos rogos de 600 habitantes, que a pediram. Não falto á verdade se disser que é visivel o prazer no semblante de toda esta povoação por verem levado a termo uma obra tão patriotica. Honra e gloria á camara, que vae fazer d’uns pobres jornaleiros pequenos proprietarios. Bem haja a camara que vae dividir a coitada em courellas. Um Turco.