Ao publico
Tendo-se dado um incidente bastante desagradavel no theatro de Beja, na noite de 9 d’este mez, do qual incidente fui victima não só das arbitrariedades da policia como tambem o sou da má interpretação dos factos que se deram, recorro por isso á imprensa, afim de tornar bastante publico, o que a este respeito succedeu. Farei uma succinta narrativa, onde relate com fidelidade o succedido, deixando ao criterio dos leitores a apreciação do escandaloso incidente, e espero que a opinião publica me faça a devida justiça, certificando que tudo que vou relatar, tudo absolutamente, póde ser comprovado com o testemunho de muitos cavalheiros, que estão promptos a corroborar o que passo a expor. N’um dos intervallos do espectaculo, achava-me junto á têa que divide a platêa do local da orchestra, e conversava com alguns cavalheiros; isto é natural; todos buscam n’estas occasiões distrahir-se do natural enfado que causam os intervallos, achava-me pois conversando quando fui peremptoriamente advertido pelo cabo de esquadra da 1.ª divisão policial de que me retirasse d’aquelle sitio e fosse para o meu logar; estranhando tão inoportuna advertencia repliquei-lhe que nenhum embaraço ali causava, o que se porventura alguem passasse tinha bastante espaço para isso, e demais me afastaria quando qualquer m’o pedisse conforme a norma da boa educação. Insistiu novamente o policia e eu tornei a replicar-lhe que só me retiraria quando visse que prejudicava a ordem e conveniencia n’aquelle theatro. Após isto retirou-se o policia e mandou me chamar por um seu subordinado, accedi da melhor vontade ao convite e fui, tendo a persuasão de que aquelle funccionario da ordem publica me queria explicar o motivo do seu tão insolito procedimento. Bem diversamente do que esperava, fui advertido com toda a arrogancia de que devia respeitar a auctoridade, alias soffreria as consequencias do meu procedimento. Entrámos n’uma reciproca contestação, na qual aquelle policia esquecendo a cordura e dignidade que deve usar no seu cargo, se rebaixou até insultar-me chamando-me intencionalmente menino por muitas vezes, e ameaçando prender-me, e isto fundamentava-me em que para tal não havia motivo; pois que embora eu respondesse um pouco excitado, comtudo não faltei á minima consideração devida á auctoridade. Infelizmente enganava-me, porque acto continuo fui preso e conduzido á esquadra, onde momentos depois, compareceu o ex.mo sr. commissario o qual tratando-me com toda a urbanidade me escutou minuciosa exposição do succedido, isto na presença do sr. cabo de esquadra, que então não soube replicar e pelo contrario affirmou ser verdade o que eu dizia. O ex.mo sr. commissario comprehendendo a inconveniencia do procedimento d’aquelle seu subordinado, tapou-o com a capa dos bons, dizendo que tudo era uma trivialidade e mandando-me pôr em liberdade. Agradecido para com sua ex.ª aqui deixo exarado não só a delicadeza com que me tratou como tambem o seu bom criterio. Á cerca do succedido correm versões, uma d’ellas é desfavoravel a meu respeito, porem o bom senso tire dos factos illação e comprehenderá d’onde está a verdade. O que digo posso provál-o em juizo. A summa de tudo é que houve um incidente provocado pela policia. Beja 10 de julho de 1877. José Ricardo Antunes Junior. (Segue-se o reconhecimento).