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Aljustrel · Portugal Correspondência · Governo Civil · Interpretacção incerta

[Aljustrel] Aljustrel 25 de julho. Devem estar aborrecidos os nossos leitores com tanta correspondencia; todas ellas teem sido precisas para o libello accusatorio que temos a dirigir ao sr. governador civil porque sabemos que só s. ex.ª é o culpado pela má administração deste concelho. Nós não temos mais ninguem de que nos possamos queixar. A camara tem, e cremos que está ainda hoje, com contas atrazadas de alguns annos, a misericordia outro tanto, e um governador civil que faça administração não as deixa com certeza atrazar, como s. ex.ª tem feito. É um grande serviço que este concelho deve a s. ex.ª e d’este quilate são todos os que s. ex.ª tem feito por elle. Tambem ninguem tem tido a fortuna de levar a palma a s. ex.ª nos negocios eleitoraes deste concelho, s. ex.ª e os do pagode teem feito aqui tudo quanto teem querido, até se conta uma historia da caderneta que é o epilogo talvez da obra. Fallaremos com mais vagar. Desejamos apresentar as contas da ultima administração da misericordia com as dos ultimos 5 annos para provarmos ao sr. governador civil que este concelho tem perdido por ter caido nas mãos dos abutres padogueiros. Ahi vai uma historia e com ella a prova de que este concelho tem sido considerado como propriedade do pagode. No dia 8 do corrente apresentou o sr. Pinheiro da Silva a despacho do presidente da camara um requerimento pedindo por certidão; 1.º quaes as quantias entradas no cofre da viação municipal em cada um dos annos de 1865 até hoje: 2.º qual foi o orçamento para a estrada do Carregueiro a esta villa, qual o subsidio do governo e quanto se tem até hoje gasto tanto desta como do cofre da viação se tinha desviado alguma quantia, para que e porque auctorisação. Todos teem o direito de requererem o que lhes for preciso, por isso ninguem tem de que se admirar; mas o presidente da camara quando vio o requerimento, fez uma careta que acompanhou com um riso tão pardo, que o julgamos com principio de uma apoplexia. Lido o requerimento, disse o presidente que não dava o despacho n’aquella occasião e por isso que amanhã. Notem agora que o requerimento foi apresentado em 8 e o ultimo despacho foi em 19, isto é, 11 dias depois e da fórma que vão ver. Vai ipsis verbis. «Passe-se a certidão requerida, em quanto [ilegível] de haver dias não seja com ella interrompido o do expediente da secretaria desta camara e o de permanente execução de que se está tratando. Aljustrel 19 de julho de 1877—Camacho.» Apesar dos 11 dias para se despachar um simples requerimento e deste despacho ter sido consultado em concelho, nem por isso deixou de ser uma raridade que com o devido respeito recommendamos á academia das sciencias. É o unico logar onde elle póde figurar. Escusado é dizer que houve recurso. Agora sabem o que se teve em vista com este, disparatado duas vezes, despacho? foi dar tempo até que houvesse esquecimento completo. Não ha nada mais tolo do que isto: Pois quando é que uma camara deixa de ter expediente? Ninguem o sabe em Aljustrel é que acontece isto porque não querem que o povo saiba onde está o seu dinheiro. E apregoam-se melhoramentos; onde estão elles? a casa da escola e o cemiterio? havemos de fallar tambem nisto para não dizerem que deixamos passar um tão bom cavallo de batalha. Alerta pois povo, elles já começam a pedir votos para a eleição da camara como escreveu o presidente, elles não querem que a administração lhes fuja das mãos porque é negocio certo e infallivel, e tu que trabalhas para metteres em cofre o teu suor, morres de cansaço e afogado em lama por esses caminhos porque o teu dinheiro não lhe vae tapar os precipicios. Cautela pois, não te deixes illudir; o que elles são já tu sabes; o que elles te teem feito não o vês... porque não é nada. Despreza-os e não te illudas, o que elles exigem de ti não é mais que a tua morte administrativa. Fecha-lhe a porta se não ficas perdido.