Aljustrel
7 de agosto. Entre os numerosos escandalos commettidos pelo pagode, ha alguns que deviam ser vistos pelo insigne escriptor burlesco Lecoq e pelo folganção Offenbach: só cantados por musica é que se poderiam tolerar. Na arrematação da renda do ver na freguezia de Aljustrel, entre as condições asnaticas e illegaes, existe uma que tem sua graça e que não deixa, da forma porque as cousas se vão encaminhando, de ter sua razão: é o rendeiro pagar 22 kilos de cera em velas! Dizemos que não deixa de ter sua razão, por que o povo que vê o seu dinheiro, que é o seu suor, a arder, trata de correr á intensidade ao incendio pondo os incendiarios ao fresco, porque 22 kilos de cera em velas a arder deve por força ser um calor intensissimo; elles como veem o fim da sua vida administrativa querem pôr-se em cama ardente para que nada falte á propriedade. Achamos justo, mas levando a questão pelo caminho legal, perguntamos, como é que estas cousas se fazem? como é que isto se tolera sem impunidade? Ninguem responde, nem mesmo o sr. governador civil, porque não tem conhecimento deste facto. Nós somos justos, não acreditamos que esta verba figure no orçamento, porque temos a certeza que se ella ahi existisse, seria eliminada. Mas para que quer a camara tanta cera? Pois não lhe basta a que produz o cortiço [ilegível] que neste tempo tem os [ilegível] para apurar as contas de [ilegível]? É preciso num [ilegível] semelhança nos actos da camara, porque o povo está sendo burlado da maneira mais descarada. E o futuro que esta gente lhe promette não é auspicioso. Veem elles que a sua muita influencia se vai encaminhando para o precipicio e tentam salval-a á custa do dinheiro dos contribuintes. Aqui trabalha-se já muito para as futuras eleições municipaes; elles não se poupam a baixezas de ordem nenhuma para continuarem na mesma vida airada e por isso vão sollicitando cartas de homens para quem a politica devia ser indifferente pelas circunstancias especiaes em que se acham. Quem é que, tendo um bocado de vergonha, queira patrocinar a causa de homens que têm sido a ruina de um concelho pela sua crassissima ignorancia e má fé? Só aquelles que os não conheçam é que os podem amparar, porque aquelles para quem esteja conhecido o seu proceder, isso nunca. Em ultimo caso dizem elles, ainda que tenham de gastar 1 ou 2:000$000 em compra de votos! Julgam que isto tem sua graça! Pois vós baldomeras julgais que o povo acredita as vossas palavras ou no vosso dinheiro? Então vão lembrar que elle sabe que quando não tínheis sacrificio de dinheiro, lhe tiravas da algibeira 10%, 100 e até 215 por cento de derrama quando só lhe deveis tirar 64; quanto mais gastando dinheiro para a vossa reeleição? Se se desse este caso não chegaria a fortuna de cada um para embolsar o cofre de viação e o que elle ainda tem é dinheiro do povo. E então o art.º 204 do codigo penal? julgais que ficaria letra morta? Cautella pois, não vos precipiteis, porque vos póde ser funesto. Quando uma camara é zelosa e respeitadora da lei, não precisa do dinheiro nem de apoquentar gente que devia ser estranha á lucta, o povo saberia cumprir com o seu dever e de mais, offerecer dinheiro por votos, alem de ser um crime, é uma proposta tão infame que o individuo que a faz hade por força ser um carrasco dos deveres do homem livre. O povo não precisa do vosso dinheiro, o povo é livre, o povo não é escravo como vós, o povo não se vende, o povo o que precisa é que se gaste na estrada o que elle tem pago; elle bem sabe que o dinheiro que vós dizeis que ides gastar nas eleições é o que lhe tem custado o suor do seu rosto, e é por isso mesmo que elle vos despreza e que elle vos deixa. A lucta está travada, vereis quem vence e podeis ter a certeza de que só gente tão pervertida como vós é que vos hade acompanhar. Dê-nos os documentos que vos requeremos e depois vinde fazer alarde das vossas pessoas e dos vossos serviços: não tendes mais remedio do que dar-nos a corda para nos enforcar.