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Lisboa / Rio de Janeiro

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Alentejo · Lisboa · Portugal Câmara Municipal · Igreja · Interpretacção incerta

Homenagem a Alexandre Herculano. (Continuado do numero antecedente.) O sr. visconde de Alemquer disse que era seu proposito apresentar na sessão de hoje uma proposta assignada pelo seu collega o sr. Pequito, e por elle orador, proposta que ficára prejudicada pela do sr. presidente que o antecipára no seu pensamento. Por este facto não tinha lugar a sua apresentação, mas como o sr. vereador Pequito estava ausente e assignára antes de partir para o Alemtejo em commissão de serviço publico, julgava-se obrigado a dar conhecimento d’ella á camara, e por isso pedia licença para a ler afim de ficar consignada na acta. A camara conveio n’este pedido. O orador leu: «Os vereadores Rodrigo Affonso Pequito e visconde de Alemquer apresentavam a seguinte proposta: que a camara municipal interpretando o pensamento dos seus municipes, e acompanhando o paiz no transe doloroso por que acaba de passar, lance na acta um voto de sentimento pela perda do grande historiador Alexandre Herculano.» Accrescentou que esta proposta era um tributo de gratidão e respeito ao distincto escriptor, que ennobreceu a patria com os productos da sua illustração. Propoz mais, como additamento á proposta do sr. presidente, que se enviasse a ex.ma viuva do insigne historiador uma copia authentica da primeira parte da presente acta. Assim se deliberou. O sr. Serzedelo Junior declarou tencionar fazer egual proposta á dos srs. presidente e visconde de Alemquer, e era provavel que todos os srs. vereadores tivessem as mesmas ideas, porque a isso incitavam as altas virtudes civicas, merecimentos e sobretudo os relevantes serviços prestados por aquelle illustre cidadão aos municipios de Portugal. Contentava-se com ter votado a proposta do sr. presidente. Por iniciativa do sr. visconde de Alemquer resolveu-se que fosse assignado por toda a vereação o officio que se dirigisse á ex.ma viuva de Alexandre Herculano, acompanhando a copia da primeira parte d’esta acta. O mesmo sr. vereador Serzedelo Junior fez a seguinte proposta: «Que a camara municipal de Lisboa, renunciando aos eminentes serviços que Alexandre Herculano prestou ao principio municipal do nosso paiz, e á grande gloria que resulta a Portugal de ter possuido tão elevado engenho, e tão brilhante historiador, resolva que o busto d’aquelle benemerito cidadão seja collocado em um logar distincto na sala das suas sessões.» Considerada urgente, foi unanimemente approvada. O sr. Tedeschi disse que a sua adhesão ás propostas votadas mostrava claramente que se associava ao pensamento dos oradores que o precederam. O sr. dr. Luiz Jardim pediu em seguida a palavra e disse que era desejo seu fazer n’esta sessão uma proposta identica á do sr. presidente, uma vez que s. ex.ª o prevenira, e que, tendo votado aquella proposta tão fervorosamente apoiada pelos seus dignos collegas, era do seu dever não deixar passar esta occasião sem declarar o seu voto e sem pedir que aquella proposta fosse ampliada. Disse mais que Alexandre Herculano, entre nós, iniciára em estylo inimitavel e cheio de amor pela democracia a historia do terceiro estado, que escrevera da burguezia, e que sempre defendera os interesses verdadeiramente nacionaes, constituindo o braço do povo, isto é, a parte forte da nação. Por tudo, os municipios que directamente representam o povo deviam sentir a morte do seu historiador, e maxime o municipio de Lisboa, o primeiro do paiz. Entrando em discussão a proposta, e não havendo quem pedisse a palavra, foi submettida á votação, e egualmente approvada por unanimidade. Está conforme. Secretaria geral da camara municipal de Lisboa, primeira repartição, 22 de setembro de 1877. No impedimento do escrivão da camara, João Augusto Marques. A empreza do theatro de D. Maria II vae consagrar uma recita á memoria do grande escriptor Alexandre Herculano, representando O Bobo. No Rio de Janeiro effectuou-se homenagem de respeito e de consideração a que tinha perfeito e incontestavel direito o grande da nação portugueza. Solemnes e sumptuosas foram as exequias mandadas celebrar no templo de S. Francisco de Paula, sendo tal a concorrencia das pessoas que ali foram dar a ultima prova de apreço ao eminente historiador, que, por não caberem nas naves da egreja, muitos cavalheiros ficaram no adro e nos corredores. Esteve tudo o que ha de bom. A commissão, que se dirigiu a S. M. o Imperador a fim de convidal-o para a solemnidade, teve em resposta do mesmo Augusto Senhor que sentia não poder comparecer aquelle acto religioso, mas que o seu pensamento acompanhava aos que fossem prestar homenagem á memoria de Alexandre Herculano. Em demonstração de pezar e de luto, cerráram as portas dos edificios em que funccionavam as seguintes sociedades: Portuguesa de Beneficencia, Caixa de Soccorros D. Pedro V, R. S. Club Gymnastico Portuguez (que tiveram os seus estandartes a meio pao), Gabinete Portuguez de Leitura, Lyceu Litterario e Retiro Litterario, no qual se celebrou á noite uma sessão funebre. Durante a solemnidade, esteve á disposição das pessoas que a ella assistiram um livro onde podessem inscrever seus nomes.