Aljustrel—2 de janeiro de 1878
Mais um objecto de grande valor appareceu hoje n’esta villa: foi o eloquentissimo discurso proferido pelo sapientissimo administrador d’este concelho, o sr. Aboim. Consta-nos que no acto da posse da nova camara, abrio s. s.ª a solemne sessão pela seguinte forma: «Meus srs.: Espero que os srs. cumpram com os seus deveres, e prestem tantos serviços como os seus collegas que deixaram agora as suas varas! Nos senhores não falta a sabedoria e desejos para não ficarem atraz dos seus camaradas que são homens illustres como são os senhores! Muito me alegro em ver estes cargos occupados pelos senhores por se parecerem com os outros senhores! Repito, senhores: eu, como administrador, estou prompto em favorecer os senhores, uma vez que os senhores se portem como aquelles senhores que largaram os logares que vão agora ser preenchidos pelos senhores! O senhor governador civil tambem a estas horas hade estar pulando de contente, por ver os destinos d’esta camara municipal entregues no poder de v. s.as, meus senhores! Não triumphou ainda d’esta vez a opposição, e ai de nós que tal succedesse. Aonde iria a gente da opposição buscar um homem que viesse bem substituir o presidente da outra cambra o erudito senhor Severino Camacho, que alem de grande theorico tantos annos andou com a vara na mão!... O sr. Godinho de Barahona, senhores, é competentissimo para presidente; tivestes boa alambrama senhores... Protestou a opposição, allegando a nullidade d’esta ultima eleição, porque o dito sr. Barahona não paga contribuições, e nem tem habilitações litterarias, como effectivamente não tem; porém como este nobre cavalheiro voluntariamente se filiou na nossa santa cruzada... deixem-os rabiar, que emquanto nós tivermos por nós, do nosso lado, o sr. governador civil, visconde da Boa-Vista, havemos ganhar sempre, ainda mesmo que a razão esteja da parte contraria; pois que elle felizmente tem poder para tudo. Protestaram coitados! Vejam de que lhes servio o protesto?... Vão lá para o nosso patrono, vão... Lá é que elle os quer apanhar. Desenganem-se, senhores, que emquanto aquelle protector de nós todos governar, tudo hade correr ás mil maravilhas, e deixem-os lá chiar... Arrematarei o meu discurso, dando os parabéns e boas festas ás suas illustres familias e aos snrs. Disse.» Já os leitores ouviram um chuveiro de disparates desta natureza? Crêmos que não. Ouviram isto? Que tal foi a estopada, mesmo no dia da posse?!