Odemira
Pouco tenho que lhe dizer meu caro redactor, depois de vinte e oito dias de silencio. Que quer saber? Dos divertimentos do entrudo? Desgovernam tudo e lhe vae pela barriga; e trazem comsigo um lacaio, muito bem concertado, com uma espada larga que em Portugal chamamos — de cavalgar — de que antigamente usavam os portuguezes, e lhe corta as pernas, o touro fica morto, e é do cavalleiro que o mata. E com este intento ha muitos aventureiros que muitas vezes levam a sua cova e perdem o cavallo que o touro lhes mata, o qual vem com os olhos verdadeiros, porque d’outra maneira não agradaria o touro. E ha muitos momos e entretenimentos na praça que é cousa alegre vel-os, com mascaras, muitas charamelas, trombetas, palanques, cheios de cortezões e damas ás janelas, o que tudo alegra a vista e o coração; e o melhor é que não vos ha-de custar dinheiro, como nas estalagens de Portugal, onde até se paga por ler uma carta alheia. Tenho janellas proprias, minhas, nas costas d’esta casa que bem sobre a praça, só para vossas mercês verem e a minha velha e filhos e netos; e, se nos entendermos, contaremos historias. [ilegível] Da estiagem? Garanta v. ex.ª que as searas quasi que se pode dizer que estão perdidas. E depois d’esta triste nova vem a calhar uma alegre. Tivemos theatro. Subiu á scena Os Medicos, que tiveram um soffrivel desempenho. E nada mais.