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Artigo

Vianna do Alemtejo

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Alentejo · Loulé · Portugal Igreja · Interpretacção incerta · Relatório

Relatorio e contas da gerencia da direcção da Associação de Caridade de Vianna do Alemtejo no anno de 1877, 12.º da sua existencia. (Continuado do n.º antecedente.) Penetradas de sincera gratidão agradecemos ás sr.as associadas e aos bemfeitores o auxilio que nos prestaram com as suas quotas, esmollas, conselhos e bons serviços, sem o qual nos seria impossivel cumprir a missão de que nos encarregastes, tão espinhosa e pejada ella é; a illustrissima redacção do Bejense a continuação do favor da publicação do nosso relatorio nas columnas do seu periodico. Temos a agradecer em especial os serviços que por differentes fórmas prestaram á nossa associação os srs. duque de Loulé, dr. José Maurício de Carvalho, Antonio Lourenço Marques Ferreira, João Antonio Martins Moron, dr. Justino Xavier da Silva Freire, Francisco Manoel de Faria e Mello, Antonio Isidoro de Sousa e José Fernando de Souza. Mais duas palavras e vamos terminar. O rapido desenvolvimento do nosso asylo d’orphãs, achando-se já quasi preenchido o quadro das asyladas, que é de 12, deve encher-nos de satisfação pelo credito que o nosso pobre estabelecimento tem merecido aos bemfeitores, que com suas esmolas subsidiam as orphãs aqui recolhidas; pois, como sabeis, a associação por ora só tem o rendimento certo para a sustentação das duas orphãs subsidiadas pelos legados dos srs. Francisco de Mello Cabral e Souza, e José Bernardino Pinto de Mello. As inscripções averbadas a favor da nossa associação pelo sr. barão de Castello de Paiva, e a disposição testamentaria do sr. Antonio Lourenço Marques Ferreira asseguram para um futuro mais ou menos remoto a sustentação d’outras duas orphãs; a doação feita por um bemfeitor á junta de parochia de Vianna assegura tambem para o futuro a sustentação de mais uma orphã; mas falta ainda a dotação certa, necessaria para as seis restantes, que tem de continuar a alcançar-se pelo modo até hoje empregado, recorrendo á bondade e caridade dos nossos bemfeitores. Com a perseverança e auxilio de Deus temos conseguido vencer difficuldades que pareciam insuperaveis; não afrouxemos pois no zelo e diligencia. Confiemos na Providencia, que tão visivelmente tem sustentado e feito prosperar de um modo assombroso a nossa humilde obra começada ha 12 annos. Pensemos no grande numero de creancinhas, que d’este edificio, que ha onze annos era um montão de ruinas que ninguem julgava provavel reedificar-se, hoje se acha convertido em amplo recolhimento da infancia pobre, onde vem encontrar agasalho, alimento, educação e ensino; já de creanças pequeninas, dos perigos physicos e moraes que as expunha a ausencia das pobres mães emquanto andavam empregadas nos trabalhos do campo, já no asylo recolhendo orphãs desvalidas, educando-as de modo, que no futuro se tornem creadas de servir bem morigeradas, zelosas e trabalhadoras. E este pensamento do bem que temos feito e faremos a tantas creancinhas pobres, alliando-se a esquecer de todas as fadigas, incommodos, desgostos e contrariedades, com que temos tido que luctar, para fazer chegar o nosso obscuro, mas util, estabelecimento de beneficencia ao ponto em que actualmente está. A educação que diligenciamos aqui dar ás creanças, que a providencia se dignou confiar-nos, é uma das obras mais valiosas que se podem conceber; porque uma creança na aurora da vida é um diamante sem mancha, uma joia divina, que carece de ser resguardada com o maior cuidado e desvelo de tudo o que possa alterar-lhe o brilho ou embacial-o momentaneamente. A assiduidade em conservar-lhes a innocencia, em cultivar-lhes a intelligencia, em inspirar-lhes o amor ao trabalho e á boa ordem e disciplina, em gravar-lhes no coração a fé e a virtude, que devem ser os escudos que, nos combates futuros da vida e das paixões, as livrarão dos perigos e dos precipicios, dar-nos-ha o prazer intimo de ter salvado da desgraça e restituido á sociedade como mulheres uteis e prestadias creanças, que a sua posição d’orphandade desvalida condemnava talvez a sorte bem infeliz. (Continua.)