Beja 13 de junho de 1878. Sr. redactor
Aproveitaremos as melífluas expressões do illustrissimo correspondente do Jornal do Povo; diremos como tu oh! judicioso João das Regras dos tempos modernos: temos sido espectador n’estas scenas, altamente repugnantes, reproduzidas ha já bastante tempo nos jornaes d’esta cidade por um defensor da sociedade artistico-dramatica e por um ex-socio da mesma, o sr. João Antonio Simenta. Lastimámos bastante que entre artistas ligados pelas mesmas relações sociaes, membros d’uma classe respeitavel e honrosa, se agitem questões de tal cathegoria: questões que accarretam comsigo malquerenças, odios e muitas vezes fatalidades. Como o illustrissimo correspondente não, admittimos que se provoque um homem arremessando-lhe ás faces a baixeza, a vergonha dos seus vicios, mas isto não é razão (e mesmo não existe) para consentirmos que se tolerem os defeitos de um que são as consequencias funestissimas, a causa unica e por consequencia responsavel. Quanto ao sr. Simenta faltou a eloquencia chã e ridicula de que são prova os penultimos numeros do Jornal do Povo, deparando-se-lhe um quidam, um Felix Pereira affrontando o gelido inverno de chapéu de palha e casaco de cetim; referem-lhe as mais difficeis circumstancias, dizem-lhe que quer estudar o verbo amar mas não tem dinheiro para comprar grammatica, implora a sua protecção e elle o posta prosegue em phrases sublimadas. Cervantes estremece no seu tumulo, Hercules… Nada, deixemos o Hercules como o nosso amigo elle que se entenda com isso. Improvisa um [ilegível] de Horacio, offusca-se, canta os amores ternos e bem constantes. Camões deslumbra-se! O que significa a estatua de bronze do vulto unico do cantor das nossas glorias? Nada! As gerações presentes curvam a fronte reverentes, as gerações passadas tentam reviver, e as gerações futuras lançarão olhos saudosos para o preterito: em Beja surgiu um novo Jayme! Mas vamos á questão. A sociedade de que se trata, visto que assim lhe chamam, tem tomado dois caracteres distinctos. Primitivamente denominando-se Sociedade dramatica artistica, pagou á actriz sempre com antecedencia; os espectaculos foram magnificos; os seus resultados fecundissimos; depois, por uma ingratidão que até me repugna mencionar, o homem a quem devia a sua florescencia é repellido da sociedade, insultado, offendido na sua dignidade. Depois a sociedade refunde-se, intitula-se Sociedade dramatica bejense e as dividas progridem de dia para dia consideravelmente; o deficit para com a dama, sempre satisfeita na sociedade precedente, é exorbitante. O sr. Rapozo, um dos individuos que a contratára n’aquella epocha, perante a divida que tambem era responsavel e que teve occasião de satisfazer, declina de si uma responsabilidade futura que porventura existiria se a actriz permanecesse em Beja. Mas a actriz não satisfeita de que viveria? Ella, o sr. Simenta, o homem que affrontára aquelle a quem devia gratidão, dá uma satisfação publica e solemne do que havia praticado, e aquelle que foi expellido torna a reformar a sociedade que toma a denominação de Sociedade artistico dramatica, como a primitiva. É porventura esta sociedade responsavel pelas dividas contrahidas pela antecedente? Se esta correspondencia tendesse a classificar o procedimento da sr.ª D. Izabel, diriamos mais algumas cousas, mas como não tende, ficaremos por aqui. Admirem a eloquencia do poeta bejense. Na dextra [ilegível], na sinistra… e com que então as duas em serviço? Bravo! Bravo! Muito bem!!! Afinal diz o sr. Pessanha na sua dignissima declaração, pouco mais ou menos o seguinte: “O sr. Simenta não é responsavel pelas contractas… etc.” E que responsabilidades terá elle mais? A que respeitarão? Povo, serão ellas?