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Artigo

LISBOA 4 DE MAIO DE 1864. (Correspondencia particular)

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Lisboa · Loulé · Portugal Caminho de ferro · Correspondência · Interpretacção incerta

Serei hoje breve e resumido. Os dois factos que teem atraído a attenção publica são os acontecimentos da universidade e a galga do novo Saturno em Lisboa. O facto da universidade é já do dominio da imprensa e do paiz por isso não me occupo d’elle. Disse-vos que a galga do Saturno tem posto os habitantes de Lisboa em sobresalto. O caso é o seguinte. No sabbado, espalhou-se que um vendilhão de alfebra e gergelim furtava as creanças e as assassinava para d’ellas extrahir oleo humano. Como ha nestes casos sempre quem esteja bem informado havia quem tivesse visto o homem levar uma creança ao collo e a mãe procurar a casa do assassino; havia tambem quem o tivesse visto passar por a Boa Hora cercado de soldados e levando n’um saco 30 cabeças de creanças. O caso é que o canard correu e deu entrada na Chronica de um jornal e este publicou-o; na segunda feira aglomerou-se nas visinhanças do tribunal e esteve o largo sempre cheio de povo para ver a sincera e horrenda cara do monstro. Ás nove e meia horas da noite ainda havia gente no largo e no final o caso não é mais do que uma peta. Com que fins se espalharia? Ninguém sabe. No sabbado ás 8 horas desabou a parede que sustentava as asnas de ferro que deviam servir para se levantar o pavilhão onde deveriam entrar os comboyos da estação do caminho de ferro de leste em Lisboa, morreram 4 operários e ficaram 8 ou 10 feridos, o panico foi immenso e no Bairro d’Alfama parecia que uma grande calamidade o atacara—pois que a maior parte das familias dos operários moram neste sitio, e sahiram á rua a procurar os maridos, paes, irmãos etc., era um espectaculo que causava dó ver esta pobre gente toda aterrada. Um dos engenheiros publicou que a causa fora o pouco cuidado dos operários, mas o que é certo, é que a parede tem segundo me dizem dois e meios palmos, e perto de 4 andares de altura, tinha 17 asnas de ferro já parafusadas, e não havia parede alguma onde ellas se aprumassem. O governo que devia mandar examinar este acontecimento até hoje nada fez. Bateo-se a cavilha da fragata D. Pedro V; a este acto assistio el-rei, o que teve lugar pelas 2 horas da tarde, a fragata tem 325 pés. A canhoeira Rio Minho está quasi cavernada e prompta a poder levar as obras interiores e a forrar. A tourada de domingo não prestou, o gado era repontão, os bandarilheiros hespanhoes nada fizeram de notável. Por hoje nada mais posso dizer se não que fui approvado o artigo 1.º do projecto do tabaco na camara dos pares, e que continua a discussão do orçamento das obras publicas, na camara baixa, e que hontem devia verificar-se a interpellação do sr. Thomaz Ribeiro, na camara sobre os acontecimentos, e hontem o sr. duque de Loulé não appareceu, é assim que s. ex.ª ama os princípios liberaes. P.