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Moura · Tavira · Portugal

[Moura] Tiveram hontem logar neste concelho as eleições municipaes, e districtaes, como estava determinado, e foram sem opposição, mas por um limitado numero de votos, eleitos todos os individuos comprehendidos nas listas apresentadas ultimamente pela maioria do centro regenerador; que se vio obrigado a modifical-as quasi á ultima hora, e no que deu provas irrecusáveis, ou de fraqueza, ou de pouca consideração pelo homem que teve de riscar. Na lista para a camara, approvada e apresentada ha muito pela maioria do centro, figurava como vice-presidente o general reformado João Pedro de Mendonça, mas não sendo elle do agrado d’alguns eleitores, encarregaram um d’entre elles, para em nome de todos declarar ao presidente do centro, que a guerreariam, se o não substituíssem, indicando para aquelle fim o dr. José Maria Nogueira. Foi realmente uma resolução acertadíssima, o impôrem ao centro, o nome do ex.mo dr. Nogueira, porque a sua reconhecida probidade e zelo pelos serviços publicos, são para todos os habitantes d’este concelho penhor bastante, de que fará todos os esforços, para que a corporação a que vae pertencer, se contenha dentro dos limites do justo, e nunca consentirá que os ultrapasse, se por ventura fôr, pelas paixões e interesses partidarios, a isso tentada; ha porem a lamentar, que só tão tardiamente e por indicação estranha, incluíssem o nome de s. ex.ª, e mais ainda, que só lhe destinassem um logar secundario, tendo jus, pelo seu saber, caracter honrado, e longos annos de bons serviços, a figurar sempre no primeiro plano. Foi com a maior facilidade que o dr. Pires Lavado se prestou a riscar o nome do seu intimo amigo o nobre general João Pedro de Mendonça, e como por fórma alguma posso crer que fosse por menos consideração com s. ex.ª, convenço-me que só o receio d’um grande cheque actuou no seu animo, para contribuir para a desfeita do amigo, e que por isso o veneravel veterano soffrerá esta humilhação em desconto dos seus peccados, e não diminuirá a affeição que sempre tem consagrado ao seu astuto, mas pouco valoroso, chefe politico. O procedimento do dr. Pires Lavado a ninguem admirou, é velho costume d’este homem politico, sacrificar o amigo mais intimo, quando se vê em risco, não o fazendo, de perder o penacho; é repetição do que praticou quando tiveram logar as eleições municipaes para o biennio de 1868 a 1869. N’aquella epocha tambem o dr. Pires Lavado desejou ser presidente da camara, e entre os differentes nomes, que compunham a sua lista, figurava o do sr. José Candido Pinto; como agora tambem houve um grupo d’homens que não receberam bem este nome, mas menos attenciosos e nada justos então, guerreiaram na urna aquelle cavalheiro, e conseguiram excluil-o; pois o dr. Pires Lavado, sem pêjo algum, servio em boa harmonia durante aquelle biennio, com o individuo que desfeiteou o seu amigo e não teve a coragem, como era dever seu, de se negar a tomar assento na camara, seguindo a sorte do amigo ultrajado, e dando-lhe assim plena satisfação. Em ambas as epochas procedeu mal e com fraqueza, mas se em alguma andou peior, foi ha dez annos, porque então sacrificou um homem, que no biennio anterior actuava de presidente ao municipio relevantes serviços, e de quem havia muito a esperar, fazendo-lhe assim perder todas as illusões, a ponto de obstinadamente se ter recusado até hoje a tomar parte nos negocios publicos, privando este concelho dos recursos e iniciativa intelligente d’um homem novo e honrado; emquanto que agora pouco havia a esperar do illustre caudilho da guerra, porque a sua idade e padecimentos o teem em estado de pouco poder fazer, e por isso ser apenas por todos considerado como uma excellente creaturazinha de Deus. Apesar de ter sido esta lista apresentada, como já disse, pelo centro regenerador d’esta terra, ninguem com segurança poderá affirmar ser esta a côr politica da futura vereação, porque figurando n’ella o sr. José Miguel d’Oliveira, que é, e sempre tem sido historico, e tendo entre os seus collegas amigos dedicados, que sempre o teem acompanhado, não se póde precisar a quem pertencerá a victoria, quando se ventile qualquer questão em que s. ex.ª não esteja d’accordo com o presidente. Em vista do que deixo ditto e que não tem contestação, posso affirmar, para gloria do chefe, que o maior sustentaculo d’este centro regenerador é um cavalheiro filiado no partido progressista! É exquisito, mas é certo. Como se gerou, nasceu e tem vegetado este centro, muito ha dizer de curioso, e fal-o-hemos em occasião opportuna: o ingenuo e hilariante do emprego do verbo vegetar, não se póde classificar por outra fórma o viver desta entidade politica, que tendo na sua direcção membros, que nunca foram consultados durante annos, é um corpo paralytico desde o nascimento, por isso que tem estado privado das funcções d’alguns dos seus orgãos principaes. De todos os cavalheiros que compõem a camara, póde o municipio esperar muito, se não se deixarem influenciar pelas ideas despoticas do seu presidente. Para procuradores á junta geral foram eleitos dois cavalheiros, que teem todos os requisitos para bem desempenharem a missão de que os encarregaram, se se deixarem guiar só pela sua consciencia. Aguardemos os actos d’uns e outros e apreciai-os-hemos então com toda a imparcialidade. Ouvi dizer, que constando em Tavira, onde o general Mendonça tem muitos amigos, a desfeita que aqui lhe fizeram, lhe mandaram offerecer um logar de procurador á junta geral, mas que o illustre militar se recusou a acceitar, em consequencia de ser pelos seus padecimentos da bexiga, obrigado a fazer uso das aguas d’esta terra. Do que fôr occorrendo, dar-lhe-hei conta.