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Beringel

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Beringel · Portugal Igreja · Interpretacção incerta

1.º de setembro de 1878. Contra a nossa expectativa foi approvada a derrama parochial desta freguezia; o que mais é, já está em cobrança sem que se haja dado applicação á derrama do anno transacto recebida ha muitos mezes. Sabemos que os vogaes da junta resistiram por muito tempo ás instantaneas do presidente da junta que quer sempre derrama ao povo, mas por fim cederam na condição do parocho combinando com este que a derrama não fosse além de 212$000 reis. Mais tarde averiguaram os vogaes da junta convictos de que se não havia feito o que estava combinado; mas foi assim porque o presidente abusou atrozmente da muita bôa fé dos seus collegas na junta, e a derrama alcança tresentos e tantos mil reis! Burla completa! burlados os vogaes da junta, e mais do que estes o povo que tem de pagar mais do que lhe comporta a sua força. E como se tudo isto não bastasse, nota-se uma grande desigualdade entre o rico, o remediado e o pobre; parecendo mais uma derrama feita a capricho do que servindo-lhe de base a contribuição que o individuo paga, pois vimos pagar 20 quem tem pouca propriedade, e 10 quem tem muita; não alludimos a quem reside na freguezia e tem propriedade fóra, visto que se entende se dever fazer obra pelo que tem na freguezia, referimo-nos a quem tem toda a propriedade nesta freguezia. O povo está indignado, não quer pagar a derrama, reage; e não sabemos como deve ser compelido a pagar uma derrama vexatória, por excessiva e desigual, e vendo a sua cultura já recebida e não applicada! Não se dá conta do dinheiro que as confrarias foram obrigadas a entregar á junta de parochia para ser applicado no que se está fazendo por meio de derramas, e para o que já se fez por conta do municipio, não se pedem; mas votam-se e auctorisam-se derramas! Sacrifica-se o povo fazendo-o pagar o que podia deixar de pagar, procede-se deste modo tão violento quando o povo está atravessando uma crise terrível, e no fim de tudo vae o producto da derrama reunir-se, com o muito recebido, na mão do depositario, ou de quem quer que seja, porque as obras da egreja matriz attendidas ha mais d’um anno não é provavel que se lhes dê desenvolvimento no inverno. Como a paciencia tem limites, não nos surprebenderá que um dia haja neste povo um grande conflicto com quem por todos os modos o provoca; e se ha muito o não tem havido, é devido á bôa índole deste manso e laborioso povo que attende sempre com attenção os bons conselhos que desejam socego e ordem. F.