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ALDEIA NOVA

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Aldeia Nova · Portugal Interpretacção incerta

23 de setembro de 1878. Sr. redactor. Descobrindo-se a ponta do véo, que tapa muitas das miserias do corpo familiar e social d’esta localidade, para logo se depara com a causa deste desagradavel quadro que sensibilisando sobremodo o sentimento humano, tem fixa a sua residencia na indifferença rebelde, com que se alimentam quasi todos os espiritos d’aquelle mesmo corpo, para o que mais interessa convenientemente a cada um e a todos os individuos desta mesma localidade, votada ao ostracismo pelos que lhe devem mais favores e dedicação, e quando estes sobretudo mais se deviam empenhar em dotal-a de bons costumes moraes e civis, unicos elementos essenciaes e precisos para amoldar a união familiar á perfectibilidade da ordem social, são bem, ao contrario, o poderoso apoio do indifferentiismo pelo ensino, que rigorosamente cumpre prestar ao que por lei, justiça, dever e consciencia tem a seu cargo guiar e educar as novas vergonteas do genero humano, robustecendo-as nos principios da boa educação por forma, que possam vir a ser o mais prestante sustentaculo da familia e da sociedade, d’estes dois templos tão intimamente irmanados quanto perfeitamente distinctos, perante cujos altares a humanidade inteira, conscia dos seus deveres, se rende e curva respeitosa, sem distincção de sabio ou ignorante, de rico ou de pobre, seja qual for a sua condição de individuo ou raça nacional. Estaria sem duvida elevada á sua devida altura a civilisação de todos os habitantes desta aldeia, se por ventura desde seus verdes annos tivessem mestres aptos e conscenciosos que lhes derramassem a verdadeira instrucção, a qual, attento o mau destino que preside a esta terra, vai progressivamente decrescendo, e com ella retrogradando a educação em virtude do nimio relaxe e abandono, que o actual professor de instrucção primaria está votando sem pejo nem rebuço ao cumprimento da sua principal obrigação publica, do que apparecem d’ha muito os bem fundados queixumes dos paes de familias sobre o aproveitamento nullo de seus filhos, alumnos d’aquelle professor, cuja escola, como é constante e notorio, é uma verdadeira sala de vicios, onde na presença do mesmo professor uns aos outros se rasgam a roupa, se maltratam e injuriam de palavras. Ora um similhante effeito da parte dos alumnos revela altamente o procedimento menos digno, e até bastante indecoroso d’aquelle sr. professor, que, não só não cura, como lhe cumpre, fundir nos alumnos ao menos o ensino da indispensavel nórigeração familiar, porque converte todas as horas d’abertura da aula em actos de acer pertinentes estranhos ao fim do seu professorado, senão tambem que se liga a muitos individuos fracos desta localidade, offerecendo-lhes o triste exemplo de com elle concorrer no mais rude taberna, unico templo que elle frequenta com toda a devoção, e onde, declarando suas reconhecidas e habitaes trapassas impostoras, consume uma boa parte do tempo, que só devia consagrar ao desempenho do seu magisterio para honra e dignidade sua, proveito e utilidade dos filhos desta terra, que bem haveriam de retribuir seus serviços. Porém bastante necio é este sr. professor, que, imaginando aproveitar-se da indifferença de quasi todos os habitantes desta localidade aos principios moraes, que são a base essencial da prosperidade dos povos, não se peja de arremessar o escandalo a esta povoação, cujos habitantes brandos por natureza se tornam igualmente bravos quando isso é mister á defesa do que mais lhes interessa como é a boa nórigeração de seus filhos. É pois para debellar a gangrena, que lavra no principio do organismo social desta povoação, que nos arrossamos a chamar a attenção da competente auctoridade, que de certo ignora o deploravel estado de degradação, em que aqui se encontra o ensino primario do sexo masculino; e a cujo appello confiamos que sua ex.ª generosamente cederá, provendo assim de remedio o desleixo e indignidade d’aquelle sr. professor, que não ensina nem educa, mas perverte e desmoralisa, pelo que bem merece o epitheto de mestre Catimbão, e a quem, caso não se corrija do pouco que fazemos publico, e do muito que guardamos occulto, continuaremos a castigar, aproveitando-nos da lição do ex.mo ministro do reino, o sr. Sampaio: quem bem ama mais castiga. Z.