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Aljustrel · Portugal Correspondência · Igreja

Aljustrel, 28-12-78. Sr. redactor—O sr. padre Cardote tinha de celebrar missa mandado dos mineiros governamentaes das minas de Aljustrel, no dia 5 do corrente mez, por alma dos trabalhadores que tinham fallecido na referida mina; porem como o tal Cardote esperava no adro da egreja matriz por aquelles brigadeiro foi a sua unção vocal para elle chegava um individuo pedindo-lhe para que fosse vaticar uma enferma ao monte do Moinho; de tal modo foi a sua indignação, que se alterou, mas depois, por estar mais acalmado, disse ao portador, que depois de dizer a missa iria vaticar; ora o portador chegou ás nove e meia horas da manhã, e quando o tal histrionico saiu foi á meia depois do meio dia e levando ao seu peito o rei de ouros, montou a cavallo á porta da egreja, cavalgando pelas ruas d’esta villa, de barrete posto, e com um chapéo na mão esquerda, prohibindo assim a que o povo acompanhasse a magestade divina como foi de costume até á sahida d’esta villa. Sr. redactor.—Quando o sr. Cardote chegou ao momento em casa, e foi ahi que poz em pratica a sua eloquencia de tal modo que collocando o Santissimo sobre uma meza, dirigiu-se á cama da enferma, e pegando no pulso d’esse afastando-se um pouco da assistente impropérios taes que os circunstantes ficaram assombrados como dizer-lhe, vocês são uns burros; por que nasceram, e não hão de acabar como burros!... estas vozes foram dadas em presença de arbitro dos mundos a quem acatar. Disse mais que não confessava em consequencia de conhecer, que a enferma só tinha uma birra, e logo que se lhe desse uma dúzia de cacetes logo se poria boa; porem a muitos rogos dos circumstantes, negava, não se prestando a confessar; pois até hoje ignoro como se possa fazer tal!... em seguida poz o sr. ao peito pondo o celebre barrete—nec Deo—na cabeça, o alforge ás costas, e vindo á porta bradou em alta voz pelo portador para o acompanhar, dizendo, leva o diabo d’alma! assim se incommoda o nosso Pai para que eu aqui venha? Depois de estar na rua vociferou, e pelo caminho de tal maneira, que o portador (defronte de quatro testemunhas) eu tenho vergonha de proferir o que elle disse... ora pois isto é que indecoroso e horroroso........ é e por tanto (segundo a religião que professa) merece apresentar-se tal facto em publico, afim de que as authoridades tomem as devidas medidas, e seja punido não só com as leis canonicas mas também com as civis; por quanto este sr. faltou não só ao respeito que devemos prestar á religião mas também á Magestade divina?... Sr. Cardote? quem foi aquelle que lhe deu tamanha authoridade? aonde está a sua historia? a sua consciencia, e o seu exemplo como ministro de Jesus Christo? Sr. redactor saiba mais que a enferma que estava doente por fingimento como disse o padre Cardote, e tal foi que decorridas que foram quarenta e seis horas falleceu. Um admirador.