Desgraças
Diz o correspondente do Commercio do Porto, que ha dias deram-se duas desgraças nos nossos caminhos de ferro, que são muito para lamentar, e que provam a necessidade de se empregar um systema de fiscalisação e de policia muito rigoroso nas nossas vias férreas. No caminho de ferro do sul, entre os kilometros 32 e 33, depois de chegar á estação do Poceirão, vinha o comboio com a velocidade do costume. O machinista viu ao longe um carro puxado a bois, atravessando a via ferrea, posto que ainda estivesse em distancia apitou. O carro continuava na via sem que apparecesse o carreiro. O machinista continuou a apitar até que de dentro do carro se levantou o carreiro, que naturalmente ia a dormir, e que acordou ao som dos apitos. Suppoz o machinista que o perigo estava passado e que o homem tiraria o carro da estrada, mas enganou-se. O carreiro deitou-se outra vez, apesar da proximidade da locomotiva, e os bois continuaram no mesmo lugar. Tinha o machinista duas grandes desgraças diante de si. Ou perda talvez total das vidas dos passageiros do comboio, ou a vida do carreiro e dos bois. Parar era inutil porque o caminho era em descida, o carro estava muito proximo do comboio e o perigo era inevitável. Que fazer? O machinista, que é homem experimentado e entendido, viu que só havia um meio de se salvar n’aquelle apertadissimo e apurado transe. Deu a maior força á machina, que vindo com a maior velocidade contra o carro fez tudo em estilhas! Carreiro, bois e carro tudo ficou despedaçado! Ao comboio nada succedeu e os passageiros que vinham nas carruagens só souberam do acontecido quando, ao chegar á 1.ª estação, o machinista deu parte ao chefe do que se tinha passado. É a primeira vez que este caso se dá nos nossos caminhos de ferro. O machinista houve-se com sangue frio e intrepidez. Sacrificou a vida de um homem á de muitos. Foi uma triste necessidade a que elle não podia fugir. No embate da machina com o carro, quem mais risco corria era o machinista, que ia na frente, e que podia saltar fóra com a pancada. Do corpo do carreiro encontraram-se apenas fragmentos em grande distancia. Os pedaços de craneo que se encontraram, eram de comprimento de uma pollegada! Soube-se depois que o carreiro era um pobre homem, muito dado a bebidas espirituosas e que costumava embriagar-se. É provável que n’aquella occasião tão pesada tivesse a cabeça que não percebesse o perigo que o ameaçava, e que por isso se deitasse novamente. A outra desgraça deu-se no caminho de ferro de leste entre os kilometros 157 e 158. Um guarda deitou-se na via, tendo a cabeça sobre o carril. Era de noute, o machinista não viu o homem deitado e a machina cortou a cabeça ao guarda. Pela manhã foi-se dar com o corpo do guarda sem cabeça. Este caso não é novo. Denunciará elle um novo meio de suicidio? Quem sabe!