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Lisboa · Porto · Portugal Correspondência · Interpretacção incerta

31-7-79. Meu caro redactor. Realisaram-se aqui os festejos de 24 de julho, com a pompa do costume, ou talvez com mais grandeza que nos annos antecedentes. O enthusiasmo com que o povo festeja o anniversario liberal, isto é, o dia em que o duque da Terceira disse: Ecce homo, eis o homem que nos traz a vossa carta de alforria, eis o vosso libertador! em mim é que reside toda a soberania! O povo, cujo desejo era sacudir o jugo despotico de um tyranno, disse em côro: salve soberano portuguez, viva a liberdade! Este grito foi unanime, mas o povo não reflectiu, ou por outra não lhe deram tempo para que interpretasse os seus programmas, elasticos e repletos de sophismas, pelos que se arrogaram de seus libertadores. Vejamos como se festejou o dia 24 de julho no Rocio: lá estavam uma tribuna e dois camarotes guarnecidos de riquissimas sedas e bandeiras douradas. Para quem seriam aquelles distinctos logares? Para o verdadeiro soberano, o povo? Não. Para os velhos veteranos, os martyres da liberdade, aquelles que expuseram a sua vida nos campos da batalha? Tambem não. Os martyres da liberdade, os veteranos que expuseram o peito ás balas na Terceira, no Porto e nas linhas de Lisboa, esses para a rectaguarda. Dói á consciencia quando á nossa vista deparamos com um pobre velho curvado ao peso dos trabalhos da guerra, em prol de uma liberdade que não desfructa, estendendo a mão á caridade publica para não morrer de fome. É este o quadro que presenciámos em pleno dia 24. Na rua 24 de julho um velho condecorado, um veterano da liberdade, estendia a mão aos transeuntes implorando uma esmola para matar a fome, á mesma hora em que meia duzia de individuos saboreavam, no palacio da Ajuda, um lauto jantar em commemoração do glorioso dia 24 de julho de 1833. Forra, papas, cama e mordomia para quem serviu a monarchia; para quem serviu a liberdade, linha na mão e fome no estomago. [ilegível]