Acontecimentos na Europa
Continua em França a discórdia entre os bonapartistas se bem que o príncipe Jeronimo tenha podido obter as sympathias da maior parte dos membros do partido imperialista. Paulo de Cassagnac attaca violentamente os defensores do príncipe que denomina mamelucos jeronimistas. O Pays torna-se notável pelos seus artigos violentos. O príncipe Jeronimo no entanto, e conforme dizemos, vae agrupando em volta de si a maior parte dos elementos imperialistas: na imprensa estão representados os seus princípios políticos pela Ordre, La Patrie, Le Gaulois, La Liberté e L’Estafette. A imprensa imperialista das províncias está inteiramente ás ordens do príncipe e promette o seu concurso sem condições. A lucta posta que encarniçada entre os imperialistas vae-se tornando bastante curiosa pelas opiniões desencontradas e pelos doestos que de parte a parte se ferem. Tudo que possa servir pró ou contra a causa que o bonapartista advoga, é exposto. O conde de Chambord, a propósito da confusão que lavra no seio dos bonapartistas, botou no ar manifesto no qual diz pela milessima vez que só em França é possível a monarchia tradicional, e que está prompto, com a unidade catholica, a salvar o paiz das garras das facções. É outro sonhador e que está sempre cheio de esperanças. A carta-manifesto foi endereçada ao marquez de Foresta, que a fez inserir na Union e em todas as folhas legitimistas ou da internacional branca. O documento é curioso. O Journal des Débats escreve o seguinte: «O sr. conde de Chambord annuncia que está disposto, resolvido, convicto de que se póde salvar o paiz, que deve, que quer salvai-o. Ah! é exactamente o que nos dizia o pobre joven príncipe que morreu obscuramente ás mãos dos zulus, esses selvagens de má peste; é exactamente isso que dizem todos os pretendentes; era também essa a convicção do ultimo dos Eduardos no momento da sua morte. Sonhos de emigrados! Sonhos da agonia politica! Mais feliz que todos elles tem sido o sr. conde de Chambord. Teve um clarão de fortuna em 1873 e não soube aproveitar-se dos sorrisos da fada. Desde esse momento não é a elle, que não saberia comprehender esta linguagem, mas sim á França, joven, vigorosa, intelligente e republicana, a quem diremos como nossos pães nos disseram: Trabalha, que o céo te ajudará.» O Journal des Débats tem razão, só lh’a contestam as folhas legitimistas. Não admira. Um facto importante teve logar em Nancy. Referimo-nos á inauguração da estatua de Thiers, no dia 3 do corrente. No acto da inauguração foram pronunciados diversos discursos em honra do fallecido presidente da republica. O ministro do interior declarou que o governo ia prestar homenagem áquelle que mereceu o glorioso titulo de libertador do território. Fez o elogio de M. Thiers, e explicou as circumstancias que o levaram a reconhecer que a Republica é o unico regimen possível para a França. Affirmou que o governo se acha resolvido a permanecer fiel ás nobres idéas de M. Thiers, de que a republica conservadora manterá as tradições francezas e o justo equilíbrio da França com a Europa e o mundo. O maire de Belfort disse que Belfort se preparava para uma festa analoga, exclamando elle ainda: «Queremos a paz mas se alguma vez formos atacados, marcharemos contra o inimigo.» Encerrou-se o reichstag na Allemanha. Bismark collocou-se ao lado dos ultramontanos e os seus odios estendem-se a todo o partido liberal. O chanceller classifica os liberaes de todos os matizes de inimigos do throno e pensa em restaurar o predominio feudal. As negociações para o accordo com a Santa Sé teem recebido a maxima actividade. O Corriere d’Italia diz: «Leão XIII recebeu do imperador Guilherme uma carta autographa respondendo em termos cortezes e lisongeiros ás felicitações de sua santidade. Há nesta carta alguma cousa mais do que uma expressão de cortezia: está consignado do modo mais explicito o desejo do restabelecimento da paz religiosa sobre bases solidas e perduráveis.» Até agora as cartas entre sua santidade e o imperador, e mesmo as que se trocaram entre o cardeal ministro d’estado e o príncipe de Bismark, foram reservadas e por vezes ambiguas. Se a carta do imperador Guilherme, falla o Corriere d’Italia, é como se indica, ha motivo para a considerar como um acontecimento do mais alto interesse e põe em relevo a prudente politica de Leão XIII. Bismark está evidentemente, pelas suas ambições e loucuras, despertando os odios da familia liberal e preparando terrivel revolução para o futuro. O novo gabinete italiano foi perfeitamente recebido pela opinião publica e nem era de esperar outra cousa porque o novo presidente do conselho de ministros, Cairoli, é um democrata. São estes os assumptos mais importantes da semana. Não finalisaremos comtudo sem dar noticia do desastre occorrido ao rei de Hespanha que teve logar n’um dos ultimos dias. Dirigia-se D. Affonso com as infantas suas irmãs, de Madrid para a Granja, quando ao chegar ao sitio denominado Siete Revueltas se despedaçou o trem. D. Affonso ficou com uma clavicula deslocada e com ligeiros ferimentos. As infantas nada soffreram. Os medicos esperam que o restabelecimento de D. Affonso seja breve. Em Guipozcoa falleceu a infanta D. Maria del Pilar, irmã do rei de Hespanha.