Ferreira do Alemtejo
Este concelho, um dos principaes em riqueza agricola do districto de Beja, está atrasadissimo em civilisação; a sua população na maior parte ignorante, é todavia docil e facil de educação. A nefasta politica tem contribuido para a desmoralisação dos povos, porque a troco d’um voto nas eleições exigem-se impossiveis, e collocam-se muitas vezes os influentes ou chefes dos partidos em falsas posições, tendo de annuir aos pedidos desconhecidos d’um ou d’outro individuo. O desrespeito á lei, e á sociedade, são as consequências que quasi sempre se colhem d’essas individualidades sem princípios nem moralidade. Um dos principaes progressos a implantar n’esta boa terra devia ser o estabelecimento de aulas nocturnas gratuitas e o ensino pelo methodo de João de Deus, que é o que presentemente, sem contestação, offerece melhores vantagens. Era este o começo da civilisação do concelho de Ferreira, que junto a providencias energicas d’uma auctoridade administrativa, era certa a transformação d’um povo ignorante em um povo economico e civilisado. Qualquer medida que se adopte, por emquanto, é sempre recebida de mau grado, porque cuidam os ineptos que a moralidade e o progresso são apenas meios de perseguição que se querem impor aos seus torpes e selvagens costumes. A prova da ignorancia deste povo demonstra-a o mappa abaixo transcripto. De 7:097 almas que consta a população do concelho, apenas sabem ler 804!!! E saberão ler essas 804? A camara municipal, hoje presidida por um cavalheiro assaz illustrado, o ex.mo sr. Luiz Antonio Infante Passanha, tem mostrado os seus bons desejos, em collocar este municipio em condições beneficas. A construcção d’uma fonte, a edificação d’um matadouro, o calcetamento das ruas, a illuminação, a arborisação nas orlas das estradas, a reconstrucção dos paços do concelho, são obras da iniciativa desse benemerito cavalheiro, durante a sua gerencia. Hoje tracta-se de se estabelecer uma estação telegraphica, e n’uma construcção de um novo açougue; o que existe presentemente não satisfaz ás exigencias reclamadas pela hygiene. São fracos os recursos de que a camara póde dispôr, todavia esses mesmos são empregados com toda a honradez em obras essencialmente precisas. Não se gasta um só real mal gasto. Os municipes devem-se vangloriar de terem á testa do municipio o ex.mo sr. Passanha, e verem que os rendimentos municipaes não são esbanjados. O concelho tem boas vias de communicação não só para as seis freguezias de que se compõe, como para os concelhos limitrophes. A aridez de seus campos durante a estação calmosa contrasta bem com o aspecto que apresentam nas outras estações, em que as searas e arvoredos, recebendo o bafejo dos ventos, se assemelham ao oceano com as suas ondulações. Poucas são as casas altas, apenas ha 36, as mais são atarracadas e de telhado. Estão todas rebocadas e caiadas. Ha 4 escolas publicas de instrucção primaria, duas na villa e uma em cada freguezia, Alfundão e Figueira dos Cavalleiros. Em Odivellas e Santa Margarida não ha nenhuma. Tem um hospital e misericordia, o seu rendimento é de 1:037$453 reis. O hospital tem duas enfermarias, uma para mulheres e outra para homens, tendo cada uma seis camas. São sete as egrejas e sete as ermidas, as egrejas quasi todas em mau estado de conservação, á excepção da egreja da misericordia que se acha decente. O mercado semanal é pouco abundante, notando-se a maior parte das vezes escassez de hortaliças e fructas. A feira annual é no 3.º domingo do mez de setembro, e consta de gado, fazendas, quinquilharias, fructas etc., sendo o maior negocio a compra e venda de gado. A agua, tanto da fonte principal como a dos poços é em geral grossa e calcarea. O clima é bastante salubre, apparecendo comtudo alguns casos de carbunculos, devido a algumas pessoas se alimentarem de carnes de animaes que morrem nos campos. Estes casos quasi sempre se dão na classe pobre, que sem repugnancia se entrega á voragem de tão nocivo alimento. Os casaes são por diversas vezes assaltados por maltezes que exigem de comer, e muitas vezes generos para levarem. Os lavradores com receio que lhes incendeiem as searas cedem ás exigencias d’essa turba de malfeitores errantes, que levam a vida n’uma ociosidade cheia de crimes e de perversidades. Não ha anno que elles se não façam lembrar praticando algum crime. Ainda este anno estrangularam uma pobre mulher que morava n’esta villa, e até hoje teem sido infructiferos todos os esforços empregados para a captura dos criminosos. A falta de policia dá logar a que a auctoridade não possa cumprir com os seus deveres. Para se pôr termo a tal estado de cousas já a camara municipal arranjou uma casa para aquartelar uma força de policias, que de Beja tencionam destacar para esta villa. Será uma medida de grande alcance, não só para o cumprimento das posturas municipaes, como para garantir a segurança individual. Ferreira 6 d’agosto de 1879. A. L. Sampaio.