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Odemira · Portugal Igreja

[Odemira] Causou, aqui, curiosidade uma policia correccional que teve logar no tribunal judicial d’esta villa, no dia 18 do corrente. Era reu um pobre guarda de alfandega, accusado de na passagem da procissão do Corpus Christi de certa freguezia rural d’este concelho, ter mettido o bonet na cabeça, na occasião em que passava o S. S., e de não ter dobrado os joelhos convenientemente. O reu defendeu-se dizendo que tirara o bonet, na devida occasião, e que fizera a devida genuflexão de militar. Foi absolvido. Agora diremos nós: Que lucrou a religião com a perseguição que se faz a um pobre guarda d’alfandega? Quando ainda mesmo elle tivesse peccado, não perdoou Christo (cheffe invisivel da igreja) aquelles que o offenderam? Não é o symbolo da religião christã: paz, caridade e concordia? Como se harmonisa um tão divino symbolo com a intolerante perseguição feita ao pobre guarda? Voltámos porventura aos desgraçados tempos do fanatismo intolerante e cruel? Teremos imminente a restauração da Santa Inquisição? Ora isto no seculo 19.º, é de mais! Não nos tomem á conta d’atheu, ou hereje (o que nos tornera pouco importa); gostamos de ver respeitada a religião de nossos paes, mas ainda gostamos mais que se respeite a religião da nossa consciencia, e que se não exerçam vinganças mesquinhas, á sombra do labaro da redempção. O estado em que vimos o pobre guarda moveu-nos á compaixão. Felizmente encontrou elle na pessoa do ex.mo sr. Jeronymo Maximo d’Almeida, dignissimo 1.º substituto do juiz de direito, quem lhe fizesse justiça — absolvendo-o. Foi defensor o ex.mo dr. Cochado, que de bom grado tomou sobre si a tarefa de defender o pobre guarda de tão... negregado delicto.