[Cabeça Gorda] Cabeça Gorda 21 de agosto de 1879. Temos sobre a nossa mesa de trabalho um pasquim, cujo auctor ignorantemente teve a ousadia de subscrever, e o qual nós vamos aqui transcrever na sua integra, para que o publico possa avaliar uma obra de tanto merito, parto do sr. Ricardo Gomes, presidente [ilegível] da junta de parochia da Salvada! O sr. Gomes apresenta symptomas de quem não está em seu completo juizo e, bom seria, que o fizessem recolher a Rilhafolles, antes que a enfermidade seja incuravel e venha a acarretar a esta freguezia males que se não possam posteriormente remediar. Consciencios d’isto, não surprenderá por certo os leitores tanta tolice e estupidez, como ali ha a notar. Eis a copia fidelissima do pasquim do sr. Gomes: «Cautella!! Fiquem sabendo os habitantes da Cabeça Gorda que a applicação de quinino e limonada sulphurica feita por engano, (ao doente Thomaz Lampreia,) foi por outro e não por mim como publicamente apregoava um illustre Cabalheiro d’esse logar no dia 8 do corrente mez, em casa de um amigo e na presença de muitas pessoas. O illustre Cabalheiro de certo, foi mal informado, e por isso talvez, incorreu na tolice de imputar-me um acto que não foi praticado por mim; e se não o foi, deixa revelar a má [ilegível] com que apregoava este facto. Mas como poderá esse Cavalheiro fazer valer o [ilegível] e fructo que desejava da propagação da sua doutrina, quando o proprio, confessou ao sr. dr. Menezes á vista de algumas pessoas que effectivamente não tinha feito a applicação do quinino! Cabalheiro!!! D’esta vez não pega a [ilegível]. Salvada 12 de agosto de 1878 — assignado — Ricardo Antonio Gomes.» Analysem bem os leitores a limonada sulphurica que o sr. Ricardo lhes apresenta, não seja que se ache inficionada e corrompida pelo sulfato de quinino, seu medicamento predilecto para todos e para tudo, ministrando-o aos enfermos em doses tão avultadas, como não ha memoria nos annaes da medicina. No primoroso trabalho que o sr. Gomes apresenta temos nós a notar, nada mais e nada menos, do que uma accusação scientifica, que bem se poderia tomar como a imputação implicita de um crime pela sciencia feita a um individuo daqui, honrado rival do sr. Gomes, e a pretensão de desprestigiar ao mesmo, além d’isto o repugnante desafogamento com que o sr. Gomes applica o termo patrio, Cabalheiro a um individuo que, sabe o sr. Gomes, é, sem ironia, cavalheiro. O sr. Gomes assim o respeitava, quando elle accodia nas suas necessidades, quando lhe matava a fome que o devorava e que o pasquineiro da Salvada ingrataamente não correspondeu. Ora, para que o sr. Gomes nos possa convencer da inconveniencia na applicação dos medicamentos que menciona, é necessario que venha á arena publica com a sua sciencia medica provar-nos até á evidencia aquella inconveniencia. Isto sobre o primeiro ponto de sua pasquinada. O sr. Gomes, estamos convencidos d’isso, ignora o sentido lato da palavra cavalheirismo, mas pode estar certo de que, as pessoas que s. s.ª pretende depreciar e desconhecer, lhe estão muito acima em probidade e honradez quanto a nosso ver. Se em alguma cousa este pasquineiro andou com acerto foi, por certo, em afixar na esquina de uma casa onde foi substituido por um ramo de verdura o seu fructo litterario, maduramente pensado e circumspectamente escripto! Só alli ficava bem collocado um tal trabalho, só aquelle era o logar adequado para receber uma producção de tal naturesa e de uma tal personagem! É necessario, diz o rifão, que a pilheira diga com a cantareira. Desculpe-nos s. s.ª se nos não servimos, para divulgação d’estas linhas, do mesmo local e pela fórma por si escolhida; outros porem, é o nosso modo de pensar, outras as nossas idéas, outros os sentimentos pundonorosos que nos adornam. Permitta-nos esta vaidade. Estamos conhecedores de tudo quanto se passou no tratamento do enfermo, a que o sr. Gomes allude; o que não sabemos porem, é se houve quem offerecesse ao sr. Gomes 8$000 ou 5$000 réis, mediante os quaes s. s.ª se obrigava a enviar o enfermo para onde effectivamente foi, e qual a pessoa que fez a offerta e se fez a quantia se a satisfez e se a fez? Já vê o illustrissimo pasquineiro que nos achamos ao facto de tudo! Aproveitamos este ensejo para implorarmos de s. s.ª a bondade de sustar com o seu projecto de inimisar com o povo um individuo, residente n’esta aldeia, aliás teremos de nos servir de uns meios por nós bem conhecidos e que por certo serão algum tanto dissaborosos para s. s.ª. Esperaremos que s. s.ª venha a publico, mas não pela fórma de que até agora usou, illudir-nos com cantigas e embustes n’alguns erro miudos a respeito de que aqui hoje tractamos. Em todo o caso, até breve, illustre pasquineiro. Montes.
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