Modificações importantes introduzidas na nova edição do Crime do Padre Amaro, por Eça de Queiroz. Este livro é realmente, sob o antigo titulo, um romance inteiramente novo. Basta para o provar, o facto de que o Crime do Padre Amaro se compunha de um volume de 380 paginas, e que se apresenta agora em um volume de mais de 700 paginas. Não tendo sido alargado o periodo da acção, estas 400 paginas a mais devem necessariamente conter novos incidentes, novos episodios, novos personagens, um drama novo. É este, cremos, um facto unico nos annaes litterarios. Até aqui tinha-se visto um auctor corrigir, melhorar as successivas edições do seu livro, procurando dar-lhe a maxima somma de perfeição possivel; mas é esta a primeira vez que se vê um auctor recolocar sobre a banca de trabalho, um romance que escrevera ha seis annos, e conservando-lhe o mesmo titulo, a mesma these, a mesma intenção, refazel-o, reescrevel-o da primeira á ultima linha. Póde-se questionar talvez a utilidade de um tal emprehendimento; o romance estava escripto; fôra approvado por uns, condemnado por outros; pertencia á classe dos factos consummados sobre os quaes, como dizem os francezes, il n’y a plus à y revenir. Para que ir gastar uma quantidade enorme de trabalho, de estudo, de esforços para o escrever de novo? Isto, porém, é uma questão entre o auctor e a sua consciencia de artista. O que interessa ao publico é saber se o novo romance lhe offerecerá mais interesse, maiores sensações, maior distracção, maiores commoções que o antigo romance. Pois bem, n’este ponto podemos afiançar que o publico será ricamente recompensado da sua expectativa. Tudo o que constitue as attracções do moderno romance realista foi aqui largamente prodigalisado: typos curiosos, incidentes comicos e dramaticos, um estudo aprofundado das miserias e das torpezas humanas, observação rigorosa dos temperamentos, tudo, mesmo aquellas scenas que ordinariamente se chamam immoraes, mas que são, a nosso ver, a transcripção exacta dos motivos secretos e baixos que influenciam a nossa pobre natureza. E seguindo n’este trabalho as influencias que levaram o auctor a refazer o seu livro: nos dois ou tres primeiros capitulos vê-se que a sua intenção é simplesmente corrigir e aperfeiçoar o estylo e estudar mais profundamente os caracteres; nos capitulos seguintes começam a apparecer as scenas, os incidentes novos, mas o fundo ainda permanece o mesmo; é no sexto capitulo que vemos entrar o primeiro personagem novo; e d’ahi por diante, então o auctor pondo de parte inteiramente o romance antigo, arrastado pela logica do seu assumpto, attrahido pelos horizontes novos que elle lhe offerece, decide-se a escrever tudo de novo, como se tratasse d’um livro novo. Não continuamos, para não deflorar o interesse, as alterações do enredo. Emquanto aos novos personagens, os melhores parecem-nos o boticario e a sua familia; o administrador do concelho, o operario socialista, o typo singular do padre Silverio, o abbade Ferrão, e sobretudo a odiosa personalidade da Tóló. As scenas novas abundam: recommendamos a que se passa em casa do doutor Gouvêa, na sala das consultas, a da taberna do compadre Osorio, a da noite de pezames, e sobretudo, a scena da administração do concelho, a melhor, a nosso ver, que tem saído da penna do auctor. Este novo livro parece todavia afastar-se dos processos do realismo, e o auctor como que procura crear uma escola nova, individual e sem ligações com as que existem. O volume estará á venda no fim do corrente mez.
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