Voltar ao arquivo
Artigo
Economia e comércioEducacção e instruçãoMeteorologia e fenómenos naturaisMunicípio e administracção localSaúde e higiene públicaEpidemiasEscolasiluminação públicaImpostos e finançasObras municipais
Beja · Portugal Câmara Municipal · Interpretacção incerta

O procurador que prometteu castigar as malfeitorias da actual camara de Beja, e patentear as imperfeições e os erros em que ella cahiu, ao organisar os orçamentos que a junta geral ha pouco lhe ordenara que reformasse, ficou estafado antes de acabar os fundamentos da grande obra. Esgotou-se-lhe a força do beatunto no trabalho heroico de dar á luz o celebre parecer sobre aquelles orçamentos, precedido e seguido de poucas linhas, em que detrás de cada palavra sae a saltear-nos um disparate; por aqui se póde avaliar a capacidade do sujeito. Para continuar a flagellação dialectica da camara, appareceu ha pouco na imprensa um contribuinte, que na verdade o é do cumulo de sandices colossaes e que, acerca da questão dos paços do concelho, vae crescendo a olhos vistos, promettendo tomar proporções assombrosas nas columnas de certo periodico. A quem ler o artigo do contribuinte, comparando-o com as palavras do procurador e com o parecer sobre os orçamentos municipaes de que tratámos no anterior numero, acontecerá infallivelmente o que nos succedeu ao terminar a comparação: suspeitará primeiramente, e depois achará probabilidades mui proximas da certeza, de que procurador e contribuinte são pseudonymos com que se mascara um só inimigo figadal da camara de Beja, ao mesmo tempo que é um perseguidor implacavel da grammatica e do senso commum. A discordante syntaxe de concordancia; a curiosissima orthographia; o luxo de virgulas, quando são inuteis, e a falta d’ellas quando são indispensaveis; a repugnancia a empregar o ponto e virgula e os dois pontos, ou a empregal-os devidamente; os parvos diminutivos; o desordenado das ideias, se ideias ha nesses pasmosos escriptos; o descomedimento e a grosseria da phrase; por vezes a ausencia completa do simples bom senso — tudo nos leva a crer que aquellas tres obras não são de tres escriptores distinctos, mas de um só orate-verdadeiro — o auctor do peregrino parecer que publicámos e commentámos no passado numero. Publicaremos e commentaremos tambem o artigo do contribuinte. Quando? Não o sabemos: a publicação depende do prosseguimento da encetada obra. Queremos escrever mais um d’aquelles artigos que se estendem por muitas columnas, occupando muitas paginas; ora o texto e o commentario do primeiro artigo do citado auctor darão talvez para quatro d’essas columnas. É pouco; trabalhos d’este genero que não occupam pelo menos duas paginas do Bejense não prestam. Continue, pois, o contribuinte a dar-nos a sua prosa, que faz as delicias de uma parte do publico que sabe ler, principalmente da rapaziada do lyceu, que folga sempre que vê um pedante, que a colera estonteia e faz desvariar, engolphar-se no charco do ridiculo, até ao ponto em que fugir á irrisão publica lhe seja tão difficil como difficil lhe é escrever duas linhas em que não se encerre um disparate desmascarado, e não sejam um equivoco da grammatica geral e da indole da lingua portugueza.