Festa de caridade
(Correspondencia do noticiário) — O immenso prazer que sentimos a ponto de brotar-se-nos uma nuvem de contentamento ao darmos publicidade à magnífica festa, d’essa nobre imprensa da publicidade e da beneficencia, é de nossos princípios; e bem convictos da nossa pouca capacidade, e dos escassos meios de que dispomos, não nos assusta a idéa d’um desfavorável juízo publico; porque com elle contamos; o que realmente nos penalisa, é ser tão debil a nossa voz, que não possamos tecer um elogio, tão digno, quanto merecido, ao povo mourense, que a passos gigantescos, caminha pela estrada do progresso. Sendo pois para nós tão escassa a natureza, não podemos mais do que apresentar os factos só em si destituidos de tudo o brilhantismo e colorido, que uma penna productiva lhe poderá dar, e deixarmos a sua apreciação a talentos mais desenvolvidos, que de certo de nós terão commiseração. Lançai uma vista retrospectiva, antigos mourenses, e confrontai esse solo, que em epochas não muito remotas, nos deixastes tinta com o vosso sangue, e juncado com os nossos corpos, com o delicioso jardim em que hoje se acha transformado, e onde vegetam as productivas plantas da Caridade e união. Vereis os homens de então a reparar os estragos de uma guerra civil, e os de hoje entregues a uma festa de caridade, e n’ella achareis milhares de provas da paz, que o Ente Supremo é servido outorgar-nos. Esta festa é um basar, instituído a favor do montepio, para o que concorreram todos sem distincção de classe, nem prejuízo da ridicula vaidade humana. Ah! se viam quatrocentas e seis prendas, no valor de trezentos e quarenta mil reis, sendo mais de dois terços, a primor da arte, e producto da applicação d’aquellas que com suas virtudes, tambem nos sabem compensar os revezes da vida humana. Sem auxilio externo e no curto praso d’um mez, só o amor do próximo e o bem interpretado espirito de associação, podia fazer que n’uma terra de terceira ou quarta ordem, se debutasse com um valor tal, pois era para nós uma instituição inteiramente estranha; mas onde nada falta para poder competir com as de mais alta categoria e até mesmo sobrepujal-as proporcionalmente. Foram damas das mais respeitáveis pelas suas virtudes e posição, quem distribuíram os bilhetes, acompanhadas por cavalheiros tambem distinctos pelo seu porte e qualidades moraes. Finalmente nada houve a desejar, essas mesmas leves faltas commettidas a inexperiência as desculpa, e não dá lugar à censura e crítica mordaz, que sempre procura uma victima. E para vós mourenses, que ainda respiraes essa atmosphera corrupta do orgulho, ahi vos fica um exemplo, com que podeis consolidar o vosso mal fundamentado monumento d’aristocracia balofa, e que só vos deixa ver por um escuro prisma. E vós tambem habitantes dos povos circumvizinhos, tomai daqui o exemplo para vossos povos refractarios, e ensinai a vossos filhos a desarraigar do coração essa vingança mesquinha, que lhe transmitis, e fazei que aprendam a amar-se com a divisa, com que nos deveis distinguir, a caridade e amor do próximo. Gloria pois ao povo mourense, gloria aos associados em geral e em especial àquelles, que com seu excessivo trabalho tão inequívocos exemplos deram d’observancia aos dogmas da mais pura das religiões. A. A. P.