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Artigo

Demência por amor materno

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Uma mulher de uns vinte e cinco annos, em extremo formosa e vestida ricamente, conta o jornal pariziense o Pays, passava às sete horas e meia do dia dez pela beira do canal, seguida de grande numero de gaiatos, que a perseguiam com gritos e chufas. Ora caminhava com precipitação, ora parava para executar alguns passos de dança. Às vezes erguia os olhos ao céo com gestos de desesperação e cortava essa muda demonstração com estridentes gargalhadas. Outras vezes, embuçando-se no seu chalé, declamava versos de tragédia. De repente, por uma corrida excessivamente rápida, metteu grande distancia entre ella e o seu cortejo de rapazio. Dirigia-se para uma creança de seis annos que andava a brincar à porta de seu pae, negociante de vinhos. A mulher parou um instante defronte do pequeno, contemplou-o, tomou-o nos braços, cobriu-o de beijos e lagrimas, e depois, levando-o comsigo, deitou outra vez a correr precipitadamente e arremessou-se ao canal. Por felicidade, havia perto alguns marinheiros, que acabavam de amarrar um barco, e que se preparavam para irem ao armazem de vinhos, findo o seu trabalho. N’um abrir e fechar de olhos, salvaram a mulher e a creança. No mesmo momento chegaram algumas pessoas que pareciam movidas de funda anciedade. Andavam a procurar a infeliz, que pertence a uma boa família e acabava de fugir d’uma casa de saude situada na vizinhança. Ferida de alienação mental em consequência da morte de seu primeiro filho, tinha sido mandada para aquelle estabelecimento, onde havia dois annos que estava em tratamento. Julgaram-na quasi totalmente curada, e como se pensasse que breve seria retirada do estabelecimento, tinha-se afrouxado um pouco a vigilância até então exercida sobre ella. Mas este acontecimento demonstrou que a sua cura estava muito longe de ser perfeita e foi reintegrada na casa de saude.