Europa
Promettêmos no preterito numero da nossa modesta folha fallar sobre a questão financeira na Allemanha, e, no cumprimento do nosso dever, vamos entrar na questão. Conforme não se ignora os crescentes encargos militares continuam a ser o assumpto de polemica entre a imprensa independente e a governamental. A Gazeta de Francfort, fallando do pedido de creditos extraordinarios feitos na camara bavara, na importância de 6.244.019 marcos, observa que, no momento da introducção do septennato militar na Allemanha, o argumento favorito dos governantes era que deveria ter por effeito a suppressão de todos os creditos extraordinarios. «Ora, ajunta a Gazeta, para se ver o modo por que o principio foi applicado, basta recapitular as sommas pedidas depois de 1874 pelo ministério da guerra bavaro para despezas extraordinarias: 17.365:000 marcos em 1874; 6.561:000 em 1875; 12.190:000 em 1877; 2.759:000 em 1878.» Os creditos actualmente pedidos attingem a cifra de 45.000:000 marcos, somma enorme para um estado como a Baviera. E note-se que as despezas ainda não ficam por aqui. Essa verba irá augmentando annualmente, subindo mais 2.095:000 marcos, quando expirar o primeiro septennato militar em 1881. Não nos devemos, pois, admirar que o Jornal da Manhã, commentando com tristeza estas reflexões, diga que a Gazeta da Allemanha do Norte é evidentemente inspirada quando desmente os projectos de armamento que se attribuem ao príncipe de Bismark. Emquanto os governos allemães augmentam as suas despezas militares, sem terem em consideração os soffrimentos do povo, a usura, a agiotagem, arvora na Silesia a obra começada pela fome. Uma nuvem de especuladores sem dó nem consciencia caiu sobre esta desgraçada provincia, comprando por valiosissimo preço as colheitas futuras e prestando com grande usura alguns soccorros, antecipados sobre os que o governo conta distribuir. Este é, pois, o estado em que se encontra a Allemanha, estado em nada lisongeiro e só, ao que parece, agradavel ao príncipe de Bismark que pensa em sustentar a influencia do império em todas as questões d’alta politica muito embora essa influencia vá caminhando impulsada pela revolução das modernas idéas para o seu occaso. A questão do Oriente é uma das que mais preoccupa o chancelier; e, convem observar, o horisonte politico está saturado de electricidade e muito se roça da primeira faisca. É indubitavel que o tratado de Berlim foi apenas um addiamento e nada mais. O seu effeito, como muito bem o disse uma folha ingleza, equivale ao effeito d’um sinapismo numa perna de pau. A questão já não resta duvida que reviverá. Os optimistas que apresentavam todas as cousas por um tão explendido quão fascinador prisma batem em retirada, e já não é ponto de duvida que a Gran-Bretanha é uma das primeiras victimas apanhada no laço habilmente armado pela politica sagaz de S. Petersburgo. Não é facil prever o que virá a succeder com a triplicação dos successos cada vez mais graves; a Austria que está facilitando a organisação do império slavo, espera occasião favoravel para firmar mais solidamente a sua influencia britannica na Asia ottomana: é uma questão de interesses que se ventila á qual o resto da Europa tem forçosamente de assistir para a segurança da autonomia e da liberdade em todos os estados e mui principalmente entre os da raça latina. Diversos são os assumptos, qual d’elles o mais importante, de que se occupam as folhas recem-chegadas. As exiguas dimensões da nossa folha obrigam-nos porém a abandonar por hoje a maior parte d’elles, e, assim pois, deixamos a questão do accordo entre a Santa Sé e a Allemanha que parece resolvida; a lucta no Afghanistan que apresenta seria gravidade para os interesses da Inglaterra; a prudencia felizmente resolvida entre a China e o Japão; e n’uma palavra, outros diversos assumptos para nos occuparmos d’um assumpto altamente importante — a organisação do partido democratico progressista hespanhol, partido composto de tres facções numerosas: a dos radicaes, a dos historicos e a dos federaes. Censurou-se vivamente a demora em se chegar a um accordo mas hoje, felizmente, o accordo está realisado. A democracia em Hespanha podemos affoitamente dizer que renasce. O seu triumpho depende agora unicamente de questão de tempo. É já incontestavel que a obra de Sagunto se desmorona — não admira porque o throno de D. Affonso está apenas collocado sobre um monte de areia movediça que ao mais leve toque da revolução desapparecerá.