Acontecimentos na Europa
A questão suscitada entre os gabinetes de S. Petersbourgo e de Pekin é, com justificada rasão, preoccupando os centros da diplomacia europeia, comtudo, as informações ácerca do estado das relações entre os dois impérios são difficilimas de obter; ninguém ignora por certo que a Rússia tem n’estes últimos mezes activado a reorganisação militar e que actualmente o seu exercito compõe-se de 897 batalhões de infanteria, 406 esquadrões de cavallaria, 373 baterias de artilheria, sem contar com a engenharia que é numerosa e perfeitamente organisada; a faina nos arsenaes é espantosa, e, segundo escrevem de S. Petersbourgo a uma folha parisiense, apromptam-se com a maxima actividade 12 couraçados. O celeste império arma-se da mesma forma até aos dentes, como se costuma dizer na linguagem vulgar, e tudo nos leva a crer que a guerra, não obstante os esforços da diplomacia para a evitar, será declarada—guerra que, infelizmente, é aguardada por grande parte do corpo commercial chinez que entende que o progresso na China só poderá ser levado nas pontas das bayonetas europeias. Não se póde comtudo neste momento determinar as consequências do conflicto diplomático que surgiu por occasião do tratado relativo á provincia de Kouldja. O governo chinez, como é sabido, mandou processar o embaixador que assignou o tratado, sendo o diplomata condemnado no julgamento, e nomeou uma commissão composta de pessoas importantes do império para examinarem aquelle documento. Por parte da Rússia, o gabinete de S. Petersburgo resolveu abrir negociações directas em Pekin, a fim de que se evitem os factos que se deram com as primeiras e se evitem maiores e mais escabrosas questões para o futuro. O Japão prepara-se para a lucta, e o Sião não só se está igualmente preparando para todas as eventualidades, mas até, segundo as folhas inglezas, entrará abertamente na guerra se os chins atacarem a preponderância portuguesa em Macau. As noticias relativas á questão da Rússia com a China devem nos interessar muitissimo porque se a França e a Inglaterra teem n’essas paragens de sustentar interesses, Portugal terá, sem duvida, complicadas as cousas, de sustentar pela força das armas a posse de Macau e de obrigar o governo do celeste império a reconhecer o nosso direito a essa tão rica possessão. Por outro lado vemos que a Rússia procura por todos os modos a occasião de tirar uma desforra da Inglaterra e de lhe cortar a influencia no Oriente; n’esta lucta, pois, que por emquanto se debate entre a diplomacia, levará a Rússia algum problema envolvido na sua política sagaz? Só o tempo poderá responder a esta interrogação. Ora já que fallamos da questão oriental diremos que entre o gabinete ottomano causou vivissima sensação a noticia da victoria do partido liberal inglez nas eleições; o governo ottomano e o proprio sultão não deixam de considerar que o império turco na Europa está profundamente abalado, e, no intuito de evitar em a completa retirada para a Asia, d’onde nunca os turcos deveriam ter sahido, procuram agora o que é curiosissimo uma alliança com a Austria, quando a Austria, na occupação da Herzegovina e da Bosnia, está lançando os fundamentos ao grande imperio slavo. A influencia ottomana nos Balkans está perdida assim como perdida está a influencia conservadora britannica em Constantinopla. Os problemas a resolver no Oriente já de interesse directo para a Grã-Bretanha, já para a Rússia são muitos e variados: a guerra recomeçada na Asia, ou entre as provincias turcas na Europa, poderá chamar a si a França, a Inglaterra e a Austria e d’aqui a uma conflagração europeia a distancia que ha a percorrer é diminutissima. Aguardemos, pois, os acontecimentos e, conforme é nosso dever, procuraremos apurar n’estas questões, que são importantissimas, toda a verdade.