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Artigo

Lisboa, 15-6-80. Cidadão redactor

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Lisboa · Brasil · Portugal Câmara Municipal · Exterior / internacional

Em o numero antecedente deixei ficar os vossos leitores na expectativa d'um conjunto de 200 deputações que se reuniram no Terreiro do Paço afim de formar a grande procissão civica que se realisou em homenagem a Camões. Vou tentar fazer uma descripção o mais approximada possivel, a fim de pôr os leitores ao alcance da sumptuosidade que assumio o acto. No dia 10 pela 1 hora e 10 minutos da tarde foi içado, no lado esquerdo do arco da rua Augusta, o signal que annunciou o começo do desfilar do cortejo; a este tempo subia ao ar, no castello de S. Jorge, uma girandola de mil foguetes, e muitas outras por differentes pontos da cidade, e salvavam o castello, os navios de guerra surtos no Tejo, e o forte de Monsanto com 17 tiros por cada boca de fogo. A este mesmo tempo sahia do Terreiro do Paço um piquete da guarda municipal seguido pelas charangas de cavallaria e por todas as bandas regimentaes que, formadas em uma só, rompiam o prestito tocando a grande marcha triumphal, dedicada a Camões. Seguia-se o primeiro carro triumphal que representava a agricultura, e após elle as deputações e mais sete carros triumphaes que representavam um Galeão do seculo XIV, Commercio e Industria, Artes, Colonias, Collegio militar e o da Imprensa; alem d'estes 8 carros triumphaes iam mais tres em fórma de açafates que serviam para receber as flores e corôas que as damas offereceram ao poeta, e um outro pertencente á briosa corporação dos bombeiros lisbonenses. Todo o cortejo desfilou pelo meio da commissão da imprensa, a qual formada em duas alas levantava calorosos vivas e urrhas a todas as deputações que passavam, sendo correspondidas, com vivas á commissão da imprensa, á soberania popular e á independencia nacional. Durante as duas horas que o cortejo levou a sahir do Terreiro do Paço, trocaram-se muitos abraços e apertos de mão, entre as differentes deputações e os membros da imprensa. A procissão seguiu pela rua Augusta, Rocio, voltando pela rua do Ouro, passou em frente dos paços do concelho, seguiu pela rua do Almada, Chiado, depositou os ramos e corôas junto á estatua de Camões, e seguindo pela rua do Alecrim desfilou em frente d'um pavilhão em que estavam, a camara municipal acompanhada pelas municipalidades, que com os seus estandartes vieram honrar tão imponente e magestosa commemoração. O trajecto durou approximadamente 4 horas, e durante esse espaço de tempo não cessaram as manifestações ruidosas que de todos os lados surgiram; no Chiado e na rua do Almada parecia um diluvio de flores que cahia sobre a commissão da imprensa, a qual correspondia com enthusiastico vivas ás senhoras portuguezas e ás do Brazil. Em frente do pavilhão em que estavam as municipalidades, foi tão ruidosa e enthusiastica a manifestação que, pelo espaço de meia hora, não cessaram os vivas de parte a parte, chegando o enthusiasmo a tal ponto que os representantes do municipio de Lisboa e dos outros municipios desceram do pavilhão, e se uniram em fraternal abraço á commissão da imprensa. Foi um momento de verdadeiro delirio! As corôas offerecidas ao poeta foram em numero de 52 e os ramos 50, e estão depositados na sociedade de geographia. Segundo diz um nosso collega, foram transportados para Lisboa, pelos caminhos de ferro, durante os festejos, doze mil passageiros. Em algumas casas de pasto chegou a acabar-se o pão, e apesar de tanto povo não houve uma unica desordem! Que grande desmentido tiveram as aves agoureiras! O rei e a rainha, o pae e o irmão, foram assignar o auto e ver desfilar o cortejo, ao Terreiro do Paço. Consta que por estes dias vão ser reabertas as cortes. M. Bruno.