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Aljustrel, 5 de junho

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Aljustrel · Beja · Bragança · Portugal Correspondência · Governo Civil · Hospital · Interpretacção incerta

Tem sido grande o desejo de virmos á imprensa accudir ás calumnias e infamias publicadas por um correspondente d’esta villa, no Jornal do Povo, esperando para isso que a questão terminasse, e o seu auctor deixasse ver o seu nome. Convencidos hoje que essa serie de infamias não tem fim, e que o miseravel auctor d’essas correspondencias, se esconde detraz d’outro nome, por ter a certeza que os calumniadores recebem mais tarde ou mais cedo o premio da sua virtude, vimo-nos obrigados a fazer a seguinte declaração, para que se não diga que o que o Jornal do Povo tem publicado sobre o titulo de febres paludosas é a expressão da verdade. Desistimos do nosso proposito porque temos, como acima dissemos, a certeza de não ser o auctor das correspondencias o signatario d’ellas, e isto, porque foi offerecido a Francisco Paes dinheiro para assignar uma das referidas correspondencias, e que quem o convidou a isso, segundo elle mesmo declara, foi Metello, Joaquim Pedro, que são incapazes de escrever, e Figueiredo que a faz soffrivelmente, por que os infernos parecem tel-o vomitado sobre nós, como castigo dos grandes roubos e infamias que a gente com quem elle se dá praticou nos ultimos annos. Em vista, pois, de se assalariar gente para calumniar caracteres nobres, dignos e illustrados, o publico que declare se temos razão para os lançar ao desprezo que merecem. Mas se por ventura se decidir a tomar a responsabilidade dos seus escriptos, como é obrigação sua, venha com o seu nome, porque tambem publicamos o nosso, e veremos se ambos podemos fazer alguma cousa em beneficio d’este concelho, que tem sido roubado e ludibriado d’uma maneira incrivel. E para lhes mostrarmos os nossos desejos ahi vae o pano d’amostra. Em 30 de junho de 1874 foi approvada a conta de 250:000 rs. de trabalhos que fez de empreitada na rua que sae d’esta villa para o cemiterio Antonio Francisco Panella. Fez-se? Não consta, o proprio signatario do recibo diz que abusaram do seu estado, e da sua boa fé, e elle merece credito, por que é um homem bemquisto e honrado. No mesmo dia mez e anno, outra de 264:955 rs. de trabalhos feitos em diversas ruas da villa e aldeia. Fizeram-se? Ninguem o diz, e temos por conseguinte n’estas duas verbas um desfalque para o cofre do municipio, de 514:955 rs. Quem o fez? Os homens nobres, ricos e por quem o povo chora, ao ver os desconsiderados pelo sr. governador civil. Mas repare. No dia 25 de agosto de 1872, e em sessão, a mesa administrativa da misericordia diz entre outras cousas o seguinte: procederam a exame no mesmo hospital para tomarem conhecimento de tudo que n’elle existisse, visto que a extincta commissão não só nada pertencente a elle entregou á actual mesa, mas nem mesmo se dignou aqui entrar e conduzir a mesa, para que a esta fosse entregue a roupa, mobilia e mais utensilios. Tres enxergões em pessimo estado, incapazes do serviço, só proprios para o lume 2; cobertores de algodão muito usados 3; em bom uso, a roupa que a mesa encontrou em um estabelecimento que tem mais de 1:000$000 rs. de rendimento!!! Mais adiante diz a acta: E interrogado o enfermeiro ácerca da existencia das roupas d’este hospital, bem como das arcas grandes, compradas para a guardar, respondeu que nenhumas arcas tinham dado entrada no hospital, nem ali se guardavam as roupas, mas sim em casa do ex-thesoureiro Antonio Severino Camacho d’onde vinham á medida que eram necessarias, e que por tanto em seu poder deviam existir as arcas de arrecadação. Tendo-lhe a mesa notado que para o hospital foram comprados 48 lençóes, sendo metade de linho e a outra de algodão, respondeu, que nunca ali vira semelhante numero de lençóes, pelo que suppunha existirem na mão do dito thesoureiro. Sabem quem assigna esta acta que mostra uma vergonha inexcedivel? São entre outros Joaquim Antonio Inglez, Antonio Teixeira dos Santos, Antonio Honorio, Manoel Raposo Beja, Antonio Zacharias Lança, amigos intimos dos membros da commissão administrativa, Antonio Xavier Loureiro, Antonio Severino Camacho, Joaquim Izidoro Moreira Bragança, o mesmo Antonio Honorio e Francisco Maralhas. Que dizem a este sudario? provavelmente que não ha motivos de queixa e que a administração da commissão era exemplar. Mais e fica-se hoje por aqui. A misericordia tem 674 alqueires do trigo de rendimento. Sabem quantos alqueires de trigo conta a tal commissão ter vendido no anno de 1872? trinta e dois pelo preço de 420 reis o alqueire!!! E o resto? Resumindo, Antonio Francisco Panella foi chamado por Antonio Severino Camacho para assignar um documento de ter recebido reis 250$000 por uma empreitada que elle diz não fizera e que abusaram do seu estado e boa fé. A conta dos 264$955 não está dizendo quem foi o empreiteiro ou se o houve, nem se prova em boa fé que esse dinheiro fosse gasto como se diz. Que as contas da misericordia emquanto a geriram os homens a quem o correspondente tanto engrandece são a vergonha eterna de quem tenha um bocadinho de dignidade. Se estes factos não merecem a attenção do correspondente do Jornal do Povo pelo facto de ir desmascarar os seus homens e mostrar ao povo que elle tem obrigação de os afugentar com a dignidade que deve revestir a independencia popular, então deixe que nós só levaremos a tarefa ao fim; mas se continuar a calumniar dois cavalheiros, mais nobres, mais dignos e illustrados do que elle, levante a mascara e não queira que outro dê o seu nome para á sombra d’elle saciar a sede da calumnia e da infamia que o domina desde os primeiros dias da sua razão. Quem procede assim é cobarde e miseravel; venha o seu nome porque nós tambem daremos o nosso.