Acontecimentos na Europa
Apoz o encerramento das camaras francezas a maior parte dos deputados regressaram ás suas localidades, onde costumam dar conta dos trabalhos legislativos aos centros eleitoraes. As ferias parlamentares, conforme nol-o dizem os orgãos de todos os partidos, teem agora grande importancia porque são as ultimas que precedem as eleições geraes do proximo anno; durante o interregno parlamentar, que é de tres mezes, o suffragio universal poderá examinar os actos dos seus eleitos e decidirá se deve ou não manter-lhes a sua confiança. É curiosa a forma como a situação é analysada pelas folhas conservadoras. Os jornaes reaccionarios fieis ao seu costume, e usando de má fé nas polemicas, affirmam que a camara popular não fez nada durante a ultima legislatura. «Pouco trabalho e esse mesmo mau» diz o Figaro. Não obstante, só no mez de abril a camara votou uma serie de leis de verdadeira importancia, entre outras a das pautas das alfandegas; lei Lonslalot sobre as deputações provinciaes ou conselhos geraes; lei sobre as patentes; sobre o direito de reunião; revogando a obrigação de guardar os domingos; supprimindo a carta de obediencia; lei sobre o codigo rural; sobre as capellanias militares; sobre a marinha mercante; orçamentos de despesas e por ultimo coroando todos estes trabalhos, a lei da amnistia. Esta larga enumeração que justifica sufficientemente a camara popular franceza das accusações de esterilidade feitas pelos reaccionarios, dispensa os liberaes de qualquer defeza e mesmo de qualquer commentario sobre a boa fé das discussões. Pelo que respeita á lei da amnistia, que tanto custou a obter, essa medida do governo veiu a apagar as ultimas recordações da luta civil, contribuindo em grande parte para maior luzimento da festa nacional de 14 de julho, imprimindo-lhe caracter grandioso tanto em Paris como nas provincias. Que não digam, pois, os reaccionarios que a camara nada fez; os trabalhos legislativos que acabamos de indicar, embora incompletos, teem direito ao reconhecimento do paiz; fica muito por fazer, mas os eleitores no seu espirito justo apreciarão as circumstancias que os seus eleitos atravessaram. Embora seja de todos conhecida a tranquillidade e o enthusiasmo com que Paris e os departamentos commemoraram a festa nacional, do anniversario da tomada da Bastilha, em que o povo entregue a si proprio e á sua expansão, não commetteu um unico excesso, os periodicos adversos á ordem de coisas estabelecidas em França, deram lamentaveis provas da sua intolerancia feroz. Para o Français, por exemplo, foi a victoria da Commune, sem gritos sediciosos nem se arvorar a bandeira que tantos horrores causou em Paris ha dez annos. No mesmo sentido escrevem o Univers, o Monde, e os bonapartistas Pays, L’Ordre e o Petit Caporal, como se recebessem muito e senha. Não obstante, todos os liberaes estão satisfeitos, e no estrangeiro faz-se-lhes plena justiça, e a melhor prova da nossa affirmativa são os jornaes inglezes, que dão grande importancia politica á manifestação de 14 de julho, considerando-a como uma prova da profunda segurança das instituições. A lucta eleitoral de conselheiros geraes que se aproxima promette ser violentissima. O governo dirigiu circulares a todos os funccionarios, recommendando a mais completa abstenção nos trabalhos eleitoraes. Em resultado da actividade energica que o governo tomou para com os jesuitas grande numero de membros da ordem de S. Ignacio de Loyola dirigiram-se como é sabido para Hespanha; os jesuitas encontram apoio no gabinete hespanhol e, como dispõem de grossos cabedaes, tem feito, em differentes provincias, acquisições de palacios por grandes quantias onde se estabelecem para continuarem na sua missão de embrutecer e explorar a sociedade. As folhas liberaes teem levantado energicos protestos contra a escandalosa protecção que os ultra-conservadores dispensam á reacção religiosa, no entanto a reacção parece zombar dos protestos da imprensa e prossegue nos seus trabalhos. Falla-se ainda do celebre processo do Tosão de oiro. Ninguem por certo ignora que o general Boet, que D. Carlos dizia ser auctór do roubo, ao passo que o general asseverava que o verdadeiro criminoso era D. Carlos. Quem tivesse seguido as phrases do processo teria de se convencer que Boet seria absolvido. Esperava-se que este fosse o desenlace do escandaloso processo que se julgou em Milão. Assim succedeu. D. Carlos assim que viu mal encaminhados os seus negocios mandou retirar do tribunal os advogados que o representavam como parte civil. Seria tambem conveniente que elle se retirasse á vida privada, deixando de figurar como pretendente, porque, se até agora, era simplesmente ridiculo, depois do processo do Tosão ficou por tal modo enlameado, desceu tão baixo no nivel social, que coisa alguma o póde rehabilitar. Se não se retirar quanto antes, expõe-se a ser exauturado pelos homens honrados do seu partido. O ultimo periodo o que nós sublinhámos é d’uma folha eminentemente conservadora. A causa carlista está totalmente perdida. Ainda bem. D’ora avante o partido liberal hespanhol terá unicamente de luctar com os ultra-conservadores e com o ultramontanismo. Um diplomata muito conhecido e que na actualidade representa uma grande potencia em S. Petersburgo, fez as seguintes prophecias, segundo nol-o diz a Italie, ácerca dos acontecimentos que hão de sobrevir no Oriente em resultado da ultima conferencia de Berlim. Recebida em Athenas e Constantinopla a nota collectiva informando os governos da Turquia e da Grécia das decisões de Berlim, o governo hellenico dirigirá uma communicação á Porta, perguntando-lhe quando e como está decidida a fazer-lhe a entrega dos territorios que as conferencias lhe adjudicaram. A Porta não responderá ou fal-o-ha de maneira evasiva. Então a Grécia tomará por sua conta a execução do novo tratado e occupará a nova linha de fronteiras. Como a esse tempo a Porta terá organisado uma resistencia officiosa, como a da liga albanesa contra os montenegrinos, os gregos serão recebidos a tiro. Se a resistencia que se lhe oppõe é séria, a Inglaterra intervirá, fazendo manifestações de forças navaes destinadas a proteger as costas da Grécia. Outras potencias que não quererão deixar á Inglaterra a exclusiva defeza da Grécia, enviarão igualmente as suas esquadras. Esta será a primeira phase da questão. Desde o momento que as coisas tomem esta feição, produzir-se-ha um levantamento nas fronteiras das provincias limitrophes; na Roumelia estalará a agitação, preparada com tempo em vista da sua reunião á Bulgaria; o príncipe Alexandre da Bulgaria, incapaz de resistir aos seus subditos, declarar-se-ha independente. A situação, pois, não é muito tranquillizadora, se houvermos de tomar em consideração a prophecia diplomatica. Se o espaço nol-o permitisse dariamos aqui o texto da nota enviada á Turquia e á Grécia pelas potencias signatarias do tratado de Berlim. Guardamos porém tão importante documento para o proximo numero.