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Artigo

Acontecimentos na Europa

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Berlim · Madrid · Alemanha · Espanha · Europa · Índia · Reino Unido Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta

Offerecem o maximo interesse as noticias de Madrid que voltam a ser recebidas com avidez. O estado em que infelizmente se encontra a industria e o commercio continua a ser deploravel; a nação sob o regimen monarchico mostra-se abatida e esta situação, que é lastimosa, está sendo pelos conservadores largamente explorada. A côrte folga, prepara festas esplendidas, ás quaes assistirá a ex-rainha Isabel, dispensa larguissima protecção aos jesuitas e a todos os inimigos da liberdade, do progresso e da democracia; e, emquanto estes factos, que são para o povo um ludibrio, se multiplicam, as povoações encontram-se oppressas pela miseria e pela fome, a liberdade está atrophiada, e a imprensa passa os dias sob um jugo despótico e vergonhoso. El Mundo Politico foi denunciado; La Provincia, de Teruel; El Brigantino, de Ferrol; El Comercio, de Alicante; El Correo Catalan, de Barcelona. Como tudo tem compensação e como não ha mal nem bem que dure cem annos, apesar da suppressão forçada de El Eco de Madrid, El Fenix, El Siglo Futuro, La Union Vasco-Navarra e El Dia, o tribunal d’imprensa absolveu o Diario Democratico de Zaragoza, apparecendo aqui, já com caracter politico, La Correspondencia Ilustrada, um novo orgão do sr. Sagasta, e El Montanez, de Santander. Quando um governo desce a este ponto e emprega o despotismo atroz para sustentar o throno, esse governo prepara, sem o prever, a revolução. Conforme os leitores sabem, a Porta já respondeu á ultima nota dos embaixadores acerca da cedencia dos territorios ao Montenegro, e o governo ottomano acaba de obedecer aos desejos da Europa. Nem outra cousa era a esperar, attendendo ao estado e á attitude das potencias signatarias do tratado de Berlim. A Porta consente na cessão, porém pede que se lhe conserve a posse de Dinoch e de Gruda. Acceita, como se vê, em parte, a proposta da Europa, e segundo o seu costume procura um subterfugio para que as cousas vão ficando na mesma. E como se lhe tivesse determinado um praso de tres semanas para effectuar a cessão, a Porta reclama agora novo praso, que facilmente lhe seria outorgado, se tivesse acceitado integralmente a proposta dos embaixadores; porém, como se nega a ceder Dinoch e Gruda, as novas negociações que a sua negativa exige assegurar-lhe-hão a dilatação que solicita. Adiada d’esta maneira a questão do Montenegro, a Turquia afasta o momento em que deva ser formalmente tratada a questão da fronteira greco-turca. E é com a esperança de que com o tempo possa surgir entre as nações a desintelligencia que a livre da pressão europeia, que assim procede, esgotando todos os recursos da politica dos adiamentos, que é a india real dos orientaes. Frequentemente se tem negado os maus tratos de que os bulgaros foram accusados em relação aos musulmanos que vivem no novo principado. O discurso ultimamente proferido na camara dos communs, em Inglaterra, pelo sub-secretario d’estado dos negocios estrangeiros, demonstrou que, não só era fundada a accusação, mas que o governo britannico teve que reclamar por via diplomatica em favor dos musulmanos. Essa gente soffreu muito em varios districtos da Bulgaria e não encontraram ainda protecção efficaz para as suas vidas e propriedades. Com este fim, o agente britannico não cessou de dirigir reclamações ao governo bulgaro, que respondeu dando seguranças do seu desejo de conceder desde já aos musulmanos a protecção necessaria para conjurar todos os perigos que os ameacem. São tambem de muito interesse as noticias de S. Petersburgo. Os processos dos réus politicos, implicados em outros crimes, continuam por uma fórma espantosa. O conselho de guerra de Kiew já principiou a examinar o processo. A accusada Luvenson advertiu que, depois de ter ouvido a accusação, não podia decidir se era levada aos tribunaes por falta aos bons costumes ou por ter commettido um delicto politico. As sentenças são terriveis; pela minima desconfiança cae sobre o réu uma condemnação de trabalhos forçados, de dez ou quinze annos. Dois dos processados a que acima nos referimos foram condemnados á pena de morte por estrangulação. Estes factos indicam por uma fórma bastante positiva que o nihilismo prossegue na lucta contra o czarismo e contra todas as tropelias do governo. Finalisando por hoje esta nossa revista devemos fallar ainda dos successos na Irlanda, que vão apresentando um caracter grave, se bem que o gabinete britannico pouco se preoccupe, ao que dizem as folhas ministeriaes, com a possibilidade d’uma revolução. O perigo deve, porém, parecer bem grave ao governo inglez para que o sr. Forster, ministro da Irlanda, partisse para Dublin, afim de vigiar a crise de perto e, sendo necessario, propor ao governo e ao parlamento convocado extraordinariamente providencias repressivas. Como se sabe, a agitação na Irlanda é resultado das queixas dos rendeiros contra os grandes proprietarios ruraes. O sr. Forster foi auctor de um bill em que se tratava de fazer concessões aos rendeiros inglezes, mas a camara dos lords entendeu que aquellas concessões eram excessivas. É provavel que o sr. Forster, que desejava favorecer os rendeiros inglezes, se veja agora obrigado a tratal-os com rigor. Depois da rejeição do bill, a agitação na Irlanda tem augmentado de dia para dia, acompanhada de provocações á revolta. Na camara dos communs causou grande impressão o discurso pronunciado pelo sr. Dillon no meeting de Kildare. Era natural aquella impressão. O sr. Dillon dissera: «Se os proprietarios teimam em repellir as nossas propostas moderadas, o santo e a senha serão não pagar as rendas emquanto se não fizer justiça. A liga agraria conta 300:000 adherentes; contra esta força seriam impotentes todos os exercitos da Inglaterra que quizessem cobrar as rendas, assim como em outro tempo o foram quando o povo se levantou contra o pagamento dos dizimos. Organisae-vos; ide todos aos meetings. Não conteis com os vossos deputados. Tratae de combater com as vossas proprias armas, e tereis a victoria segura.» O sr. Forster disse no parlamento que já havia na Irlanda 11:000 constables, 21:000 homens de tropa de linha e 1:000 marinheiros. Duvida-se de que estas forças, não sendo muito augmentadas, possam vencer a agitação que lavra na Irlanda.