Acontecimentos na Europa
As folhas de Paris e a proposito d’uma pretendida divergencia no seio do gabinete, despertaram n’esta semana o espirito publico sempre avido de grandes successos. Os ultramontanos de pur sang espalharam que mr. de Freycinet transigiria com o Vaticano na questão religiosa e que deixaria em paz as congregações religiosas, embora não reconhecidas pelo estado, uma vez que os seus chefes declarassem não se envolverem em politica. Conforme nol-o disse o thelegrapho, o sr. Freycinet fôra percorrer algumas cidades do Meio Dia, e, com a sua digressão espalhára-se em Paris, dando-se até como um facto, o rompimento entre a camara e a presidencia do ministerio, em consequencia da declaração das congregações não auctorisadas. Dizia-se que o sr. Freycinet se houvera n’esta questão com debilidade e timidez, e designava-se para lhe succeder na presidencia do sr. Constans ou sr. Challemel-Lacour, afim de levar por diante a obra de perseguição contra as congregações religiosas. Não acceitamos por emquanto esta versão, que iria complicar gravemente as cousas e quebrar a harmonia que actualmente reina no governo da Republica. No proximo numero, e porque temos agora de tratar d’outros assumptos, fallaremos circunstanciadamente da segunda applicação dos decretos de 29 de março. Offerecem igualmente muito interesse as noticias de Londres. O parlamento, não obstante o Daily News ter declarado que seria prorogado, está encerrado. A rainha disse no discurso que continua a receber disposições em que se acham os governos estrangeiros; espera que a pressão da Europa, que está completamente de accordo com respeito ao Oriente, levará a Porta a cumprir as promessas de executar as reformas, assegurando assim a tranquillidade no Oriente. Na Irlanda, devemos, porém, dizer, crescem de dia para dia a agitação e a excitação, por causa da questão agraria. Nos circulos diplomaticos em Londres tem causado vivissima sensação as noticias que ácerca da peninsula dos Balkans tem inserido as folhas de Berlim e de Vienna. A Nova Imprensa Livre, de Vienna, publicou um documento de importancia, que será objecto de vivos commentarios, se esse documento não for apocrypho. Refere-se a um tratado de alliança offensiva e defensiva entre os dois principados slavos da peninsula dos Balkans, a Servia e a Bulgaria. O fim d’este tratado consiste em assegurar o ultimo dos contratantes dos principados um contingente de 55:000 homens que a Servia forneceria, invadindo o territorio ottomano com 25:000 homens, ficando na Bulgaria os restantes 30:000 para que, juntos com os do exercito do principe Alexandre, defendam o territorio do principado contra as armas turcas. O facto grave d’este convenio servio-bulgaro está na clausula a que se obriga o governo de Tirnova em impedir que a Austria avance nos Balkans. Esta estipulação é ainda mais notavel pelo que significa do que pelo que vale, pois seria risivel que a Bulgaria só, ou a Bulgaria com a Servia e com todos os demais povos da sua raça, se propozessem fazer frente ao imperio austro-hungaro e contol-o em respeito, se este quizesse impor a sua influencia nos Balkans e não tivesse mais resistencia que vencer do que a que lhe possam apresentar os povos slavos. O ponto delicado da questão estriba-se em que o estipulado entre os gabinetes de Tirnova e de Belgrado não póde considerar-se estipulado em proveito dos seus proprios interesses, posto que a Servia e a Bulgaria, ainda mesmo que resistissem, se se tratasse pura e simplesmente de as incorporar ao imperio austro-hungaro, não tem grandes meios que oppôr á acceitação de um patronato e influencia que seria a sua mais efficaz protecção contra o commum inimigo ottomano. O que se estipula, pois, entre a Servia e a Bulgaria contra a Austria, é em proveito de terceiro, e esse não é outro senão o governo imperial moscowita. A Rússia comprehende o jogo que se está preparando para quando chegue o momento da liquidação do império turco, e sabe de sciencia certa que se trata de transplantar a sua influencia, substituindo-a pela influencia germanica. É sabido o projecto acariciado por Bismark desde largos annos, de fazer da Austria, apoiada pela Allemanha, o arbitro do Oriente, e este projecto fere os mais queridos propositos da Rússia, sendo um obstáculo á sua sonhada conversão no império bysantino. O principado da Bulgaria não é, rigorosamente, senão um governo russo dissimulado; de modo que o gabinete de Tirnova, em materia de relações politicas com o exterior é uma succursal da chancellaria moscowita. O tratado, pois, entre a Servia e a Bulgaria, se existe, deve ter sido inspirado pela Russia, e a prohibição em que se assenta no protocollo relativamente á Austria, não é bulgara nem servia,—é russa. Aguardamos a confirmação da noticia publicada pela imprensa de Vienna, confessando entretanto que, se o texto do tratado não é exacto, estaria comtudo em caracter, e poderia chegar a ser verosimil em um praso talvez não muito distante.