Acontecimentos na Europa
Voltamos á questão do Oriente. A entrega de Dulcigno aos montenegrinos não está ainda officialmente confirmada; algumas folhas de Londres noticiaram, apoz o decreto de Constantinopla para a entrega pacifica da cidade, que os montenegrinos tinham avançado e tomado posse e que tudo se havia passado em boa ordem, sabe-se porem que a noticia necessita de confirmação e até se dá como boato espalhado para entreter os espiritos que mais se preoccupam n’esta melindrosa questão. Noticia official, repetimos, não ha, por emquanto, e tudo nos leva a crer que o celebre decreto de Constantinopla foi mais uma artimanha da politica ottomana para empatar a questão. Agora, e segundo os recentes telegrammas, novas difficuldades parecem ter surgido para a entrega de Dulcigno. A République Française publicou um despacho de Cettinge, dizendo que o delegado turco Bedri-Bey apresentou ao delegado montenegrino Matanovitch um projecto de convenio na entrevista que ambos tiveram em Virbazar. Esse projecto abraçaria os pontos seguintes: 1.º Os montenegrinos marcharão doze dias depois da assignatura do convenio. 2.º O commandante montenegrino será avisado vinte e quatro horas antes pelo commandante turco. 3.º Os montenegrinos entrarão no districto de Dulcigno, não por Mazura mas por Veh Corana. 4.º As tropas ottomanas manter-se-hão a 1:000 metros de distancia. 5.º Logo que termine a occupação, o commandante montenegrino informará o commandante turco. 6.º A Porta não será responsavel dos acontecimentos que possam sobrevir á occupação. 7.º A marcha dos montenegrinos será modificada se o commandante turco assim o entender. 8.º Haverá previa intelligencia entre os dois respectivos commandantes, afim de terem a faculdade de concluir a sua acção, se essa cooperação for necessaria para evitar a effusão de sangue. 9.º O praso de 12 dias é susceptivel de ser prolongado. O mesmo despacho diz que a esquadra austriaca mudou de posição, fundeando á parte, na bahia de Megline, junto a Castelnuovo. Houve rixas frequentes entre os marinheiros austriacos e italianos, e diz-se que alguns destes insultaram o archiduque, o almirante italiano teve de dar as devidas satisfações. O despacho inserido na République Française é assaz importantissimo e claro para que se comprehenda que o Dulcigno não é uma questão tão facil de resolver como se julgou ás primeiras impressões apoz o encerramento da conferencia de Berlim. Conforme se sabe na Grecia, a exitação dos espiritos contra a Turquia, é cada vez maior; e centenares de mancebos correm ás armas para estarem aptos, no caso d’uma guerra com a Porta, que se obstina em tratar do arredondamento das fronteiras gregas. O ministro da guerra passou ha pouco uma revista a 4:500 recrutas, assistindo consideravel multidão que os acclammou, e os preparativos militares continuam com a maior actividade. O effectivo do exercito comprehende actualmente 42:000 homens. As 15:000 praças da reserva serão chamadas logo depois da abertura do parlamento. A questão agraria na Irlanda continua preoccupando a imprensa e mui principalmente a de Londres. A questão apresenta de dia para dia um caracter mais serio, e, comquanto o governo inglez determinasse perseguir pelo meio dos tribunaes os chefes do movimento, comtudo este expediente em lugar de intimidar os espiritos ainda os exitou mais. O processo criminal, segundo as ultimas noticias, é instaurado contra os seguintes individuos da liga agraria: Parnell, Biggar, Dillon, O’Sullivan, Sexton O’Sullivan, irmãos O’Connor, Brennau, Egan, Kettle, Boyton O’Sullivan, secretario da liga, e Redpath, jornalista americano. Eis, porem, o effeito produzido com a publicação de tal resolução. Os deputados irlandezes sabendo que os membros da Liga vergam sob a ameaça de prisão, foram filiar-se n’ella; de modo que se o governo insiste no seu proposito, terá que fazer processar mais de cem deputados. A situação, portanto, é muito melindrosa, e não será para estranhar que venham a surgir divergencias no seio do gabinete. Foi preso o secretario do sr. Parnell, mr. Healy. No grande meeting, que se celebrou em Galway, e ao qual assistiram 40:000 pessoas, o sr. Parnell censurou os reforços de tropas e policia que o governo mandou para Galway. Qualificou o sr. Froster de hypocrita. «O governo é o unico responsavel dos assassinatos commettidos. A unica causa do assassinio de lord Mountmorris é a pessima administração ingleza na Irlanda. Porem o governo sabe que, se o systema sobre o qual está baseada actualmente a propriedade fosse abolido, a Inglaterra não poderia sustentar já o seu dominio na Irlanda. Esse é o verdadeiro motivo das perseguições que o governo se propõe dirigir contra os chefes da agitação agraria.» Outros meetings houve em differentes pontos do paiz, mas não se sabe se em alguns d’elles foi alterada a ordem publica. Os telegrammas recebidos de Calcutta teem causado em Londres a mais viva impressão. Sabe-se que a situação das tropas inglezas no Cabo da Boa Esperança, é angustiosa. Attacadas pelos basutos as forças do coronel Bayly em Maseru, e depois de bater-se durante um dia, conseguiram que se retirasse a guarnição, receiosa de uma surpreza. Os basutos saquearam a povoação, incendiaram a casa do governador, egrejas, quarteis e edificios publicos, e retiraram satisfeitos da proeza. O major Carrington achava-se em pessimas condições; suppunha-se que Mafeteng corria grave risco, e a ansiedade na colonia era grandissima. Por ultimo, o coronel Clarke, partio á frente de 1:000 homens em soccorro dos alliados, libertando-os depois d’encarniçado combate. Estavam as coisas n’este estado quando um telegramma recente nos informou, que a situação do Natal e Basutolandia era gravissima e que varios europeus tinham sido assassinados. Pediam-se reforços á metropole; as forças na cidade do Cabo eram escassas, e a defeza do paiz estava confiada ás tropas indigenas, por cujo espirito não póde responder nenhum militar pratico. Os resultados d’essa confiança sabem os inglezes quanto lhes teem custado n’aquelle extremo d’Africa. A estes acontecimentos junte-se o que se está passando na Irlanda e temos explicada a razão da preoccupação e impressão dos espiritos nos circulos politicos na grande capital de Grã-Bretanha. As folhas de Madrid trouxeram-nos ha pouco a dolorosa noticia da morte de Orense (marquez de Albaida) o decano da democracia hespanhola. O partido republicano está de lucto. Orense era um convicto republicano federal e a liberdade em Hespanha deve-lhe innumeros serviços. O nome do strenuo apostolo da democracia jamais será esquecido. Na qualidade de liberaes seja-nos permittido n’estas curtas palavras, que ficam traçadas, prestar o nosso preito de homenagem ao magestoso vulto que acaba de desapparecer d’entre os vivos, modelo de virtudes, de hombridade, de abnegação e de patriotismo.