Acontecimentos na Europa
A questão religiosa é o assumpto obrigado no mundo diplomático a todas as discussões, e o que durante a pretérita semana mais preocupou os espiritos a julgar pelas noticias que nos trouxe o correio d’além das fronteiras. Na Hespanha, conforme já minuciosamente relatámos, a questão religiosa, favorecida pela politica adoptada nos clubs conservadores, continua a tomar uma feição bem pouco lisonjeira para os interesses da democracia. Novos collegios ultramontanos se teem aberto e nas provincias vascongadas a propaganda em pró dos principios nefandos dos jesuitas tem ultimamente e com a chegada dos jesuitas expulsos de França tomado espantoso incremento. Na França, o governo continua e com a maxima energia a responder ao repto que lhe foi lançado pelos ultramontanos. As attenções começam porém a voltar-se para a Belgica onde a questão tem tomado uma feição bastante caracteristica. Demoramo-nos um pouco em consubstanciar as folhas belgas as quaes encetaram a publicação d’uma memoria acompanhada de documentos sobre a ruptura das relações diplomaticas da Belgica com a Santa Sé. A obra é precedida de uma introducção escripta pelo primeiro ministro, sr. Frère Orban, que é um resumo historico d’essas relações desde 1830 até o momento da ruptura, fazendo-se notar que o periodo decorrido desde 1855 até o presente, as relações diplomaticas durante os primeiros cinco annos d’esse periodo quasi se limitaram á notificação do advento ao throno de Leopoldo II, e que dos outros vinte annos, correram mais de dezesete durante os quaes a Belgica não teve ministro formalmente acreditado em Roma, onde se teve representada por secretarios da legação. O partido liberal estava completamente resolvido a quebrar as suas relações com a Santa Sé, quando o advento de Leão XIII, que annunciava intenções conciliadoras, e que parecia comprehender as exigencias da sociedade moderna e apreciar as necessidades de nossos tempos, o fez desistir do proposito, levando-o a tentar nova experiencia. Os compromissos contrahidos na opposição pelo partido liberal, obrigam-o, logo que foi chamado ao poder, a reformar a lei de 1842 sobre a instrucção publica, como meio de atacar a propaganda ultramontana, que ameaçava fortemente as instituições liberaes. Retiraram-se, pois, as relações, afim de se conseguir que a Santa Sé convidasse o episcopado belga a pôr termo aos ataques á Constituição. Durante um anno, diz a Memoria, parecia que Leão XIII respondia ás esperanças concebidas pelo partido liberal, e suppoz-se que sua santidade havia transmittido aos bispos ordens para que não se oppozessem ás reformas projectadas pelo governo. O governo belga esperava que o alto clero obedeceria ás insinuações do chefe da Egreja, porém, o tempo passava, e a guerra, em lugar de diminuir, augmentava no pulpito e na imprensa catholica. Por este motivo, o embaixador da Belgica em Roma fez reclamações, e declarou ao seu governo que, tanto o papa como o seu secretario, cardeal Nina, operavam em sentido duplo, e que se cruzavam grandes influencias que produziam athmosphera hostil ao governo. N’estes factos se apoia o governo belga para justificar a ruptura das suas relações com o Vaticano. A questão religiosa que se estende á Allemanha acaba de se declarar igualmente na Suissa onde o partido ultramontano se apresenta perfeitamente disciplinado. Em uma das nossas pretéritas revistas fallámos dos successos da Allemanha e demonstrámos o estado em que ali se encontram os espiritos. Fallemos agora da Suissa. Em diversos cantões da Suissa catholica organisou-se uma manifestação a favor das Irmãs do ensino, por occasião de se tratar dos requerimentos de alguns individuos do cantão de Lucerna, que pediram que ellas fossem afastadas das escolas publicas. O governo de Zoug acaba de endereçar á Assembléa federal uma Memoria em que conclue pela estabilidade das Irmãs do ensino como professoras. Allega o governo que o artigo 27.º da constituição federal não exclue de modo algum as irmãs ou, em geral, os membros pertencentes a ordens religiosas, do ensino nas escolas publicas. Allega tambem que não podem ser invocadas seriamente quaesquer outras disposições da constituição, visto que as Irmãs não perturbam a paz confessional, e que não se póde pretender que sejam, nas suas funcções escolares, perigosas para o estado. A assembléa federal ainda não resolveu a questão, que é interessante em vista dos recentes acontecimentos que determinaram a expulsão das congregações em França. Fóra d’este assumpto, aliás importantissimo, temos de tratar do processo instaurado no 8.º districto do tribunal de Paris pelo general Cissey contra os srs. Laisant e Rochefort, redactores principaes do Petit Parisien e do Intransigeant por difamação, e a sentença pronunciada contra estes dois jornalistas, foram o acontecimento importante do qual muito se occupam as folhas de Paris. Fallemos com maior minuciosidade d’este successo. As audiências dos dias 25 e 26 de novembro demonstraram a absoluta falta de fundamento das accusações formuladas pelos srs. Laisant e Rochefort. O general Cissey era accusado de haver entregue ou de ter consentido na entrega aos inimigos do Estado certos papeis importantes, que revelavam o segredo dos planos da mobilisação do exercito. Accusavam-no tambem de ter feito por este meio negocios torpes, e de ter vendido a honra dos seus secretarios no ministerio, no tempo em que geriu a pasta da guerra. O sr. Rochefort, completamente desconcertado com a defesa, viu-se obrigado a confessar que não fôra mais do que o echo de certas noticias que circulavam no publico, e que não podia comprovar as suas affirmações. O advogado do general Cissey elevou-se a grande altura, pela sua energica e conveniente defesa, proferindo discursos que o collocaram na primeira plana dos oradores politicos. O tribunal condemnou os srs. Laisant e Rochefort na multa de 4:000 francos e 8:000 francos de perdas e damnos, cada um. Do S. Petersburgo enviam ao periodico radical de Paris La Justice o seguinte: «Hoje, pela manhã, em todas as paredes de S. Petersburgo, appareceram proclamações nihilistas, em que se diz aos russos haver chegado o momento de se descartarem do tyranno. As proclamações conteem ameaças contra a vida do czar, e predizem que, antes de findar o anno de 1880, o throno de Alexandre, o homicida, ficará vago. A policia arrancou as proclamações; porém, não poude descobrir quem as tinha affixado. O grande numero d’ellas prova serem muitos os revolucionarios que se dedicaram, ao mesmo tempo, a esse trabalho, por isso é para estranhar que nenhum fosse preso.» Não sabemos qual a veracidade da noticia dada pelo correspondente moscowita á folha parisiense, orgão de mr. Clemenceau; em todo o caso demonstra que os manejos do nihilismo continuam com a maxima actividade. Tornar-se-ha em realidade a affirmação do correspondente? Dissemos acima que a importante questão grega constitue um dos assumptos importantes que devemos tratar. Ficará para a semana.